espelhagem

PRIMORDIANDO

O moleque tinha 7 anos, bicho do mato de uma minúscula cidade, chegou na periferia de uma cidade média nos anos 70 e pela primeira vez pegou um ônibus sozinho, foi parar no centro da cidade e pela primeira vez subiu numa escada rolante de uma loja, ficava correndo para baixo contra sua subida, queria brincar contra o ritmo predeterminado.

O moleque tinha 8 anos, pela segunda vez pegou um ônibus sozinho e foi para o centro da cidade, entrou pela primeira vez num edifício, pegou pela primeira vez um elevador, andar por andar foi descendo gente e ao chegar no último estava sozinho, então apertou o botão térreo, desceu alguns andares sozinho, apertou os botões de todos os andares, desordenadamente, um lá em cima, outro lá de baixo, outro lá do meio, outro lá em cima de novo, outro de volta ao meio, etc, 20 ao todo. Daí desceu no térreo e ficou vendo o painel do elevador ir e voltar aos andares chamados.

Contudo, após ter apertado o térreo para descer, e antes de apertar os botões dos 20 andares enquanto descia, o elevador tinha sido chamado por estudantes de uma faculdade num dos andares pelo qual o elevador já havia passado, de modo que foi somente após deixar o moleque no térreo, e subir, que o elevador embarcou os estudantes e, estando programado para obedecer a ordem de chamada, após apertarem o térreo para descer os estudantes tiveram de esperar o elevador abrir as portas em todos os 20 andares chamados pelo moleque, subindo e descendo. O moleque ouvia a galera gritando êêêêêêê a cada parada, deram uma volta e tanto, chegaram mais tarde em casa.

O moleque não imaginava que as coisas se repetiam, que cada ida e volta significava mais que um êêêêêêê. 30 anos depois assistiria, pela tv, programas com brincadeiras que irritam os outros, as ditas “pegadinhas” de mau gosto, surpreenderia-se que eram adultos fazendo isso.

Vivendo naqueles finais dos anos 70, na escola o moleque convivia com cadernos de caligrafia, e eles podiam dar resultados incríveis. A letra do moleque era horrível, mas devido a esses cadernos teve um período de boas letras; depois desandou de novo, desaprendeu. A datilografia não fazia parte da grade escolar, mas era muito requisitada em termos profissionais, havia cursos específicos destinados a jovens que podiam durar até um ano, bons datilógrafos podiam arranjar bons trabalhos. Hoje em dia as crianças já nascem sabendo digitar.

Claro que naquela época já havia os hediondos cultos religiosos, os afogamentos na lagoa e os trabalhos forçados de crianças. Claro que já havia captação de imagens pelas antigas máquinas fotográficas e, em dias especiais, as fotos tiradas por fotógrafos profissionais em eventos importantes era um investimento razoável, ou quando as famílias iam até o estúdio para tirar uma única foto. As câmeras eram artigos de luxo e nas festas, entre turmas, diante de uma máquina fotográfica os piadistas diziam que passavam até perfume. Quanto mais antigas as fotos, mais raras.

O moleque não sabia que pequenas coisas dão forma ao mundo continuamente, em forma de ciclos. Naquele tempo havia as meninas com seus caderninhos interativos, elas emprestavam os caderninhos para que “usuários” os levassem para casa e respondessem várias perguntas, cor preferida, fruta preferida, diversão preferida, artista preferido, música preferida, preferências gerais, opiniões gerais, bem como deixassem seus pensamentos ou pensamentos de seus autores preferidos, desenhos, frases, poesias, inclusive havendo espaço para que os “usuários” fizessem comentários tanto sobre as “postagens” das donas dos caderninhos quanto de outros “usuários”, inclusive com o direito de fazer comentários sobre comentários anteriores, por exemplo, se um menino dizia que sua mulher preferida era tipo uma musa da música ou novela da época podia haver aquele outro que dizia preferir mais o tipo “baixinha e gordinha”, daí surgia um debate de querências entre quem quisesse participar onde os direitos eram iguais. Muitas casas só tinham rádios e rádios não têm imagens, os visuais pré-estabelecidos não eram tão determinantes. As pessoas tinham mais espaço para imaginar e mais tempo para contar.

De modo geral os caderninhos foram redes de relacionamento primitivas, embora mais humanas, eram passados de mão a mão. As meninas dividiam seções com folhas ou pétalas secas, enfeitavam suas páginas preferidas e seus amores preferidos. A internet revolucionou os contatos à distância, e algumas páginas de relacionamento são provas de grande capacidade técnica devido aos programas que facilita uma série de operações, embora não exista diferença conceitual que as diferencie, tanto quanto as páginas pessoais, dos caderninhos dos anos 70 cuja idéia, ou prática, deve vir de tempos bem anteriores. As fantasias diárias, as aventuras cotidianas e os passatempos, tudo se forma antes da forma, pela necessidade da forma, e diferenças monumentais não eximem a base. Nas festas juninas as paqueras contavam com bilhetes pré-moldados, um abraço, um beijo, uma frase, uma “curtida”; hoje em dia já temos cupidos virtuais também.

Mas os caderninhos e bilhetes, embora causassem choques e revanches, nem se comparam ao que se vê nas atuais redes sociais. Os caderninhos podiam virar motivo de conflitos quando alguém mencionava o nome de um desafeto, ou porquê não foi incluído o nome desse ou daquele, ou porquê esse falou mal daquele, e os bilhetes podiam causar briga entre rivais ou se fossem enviados a alguém comprometido. A escala que isso atingiu inclui agressões físicas e até mortes.

Muita gente considera a inclusão de nomes em listas um dos males das redes sociais, pois somos inclusos mesmo que não queiramos, e muitas vezes não queremos. Alguém pode mencionar nosso nome, isso é inevitável, mesmo que seja um baita de um inimigo; mas a inclusão de nome em listas dá a impressão de que pertencemos a algo que, muitas vezes, não pertencemos, ou não queremos pertencer, e mesmo que possamos bloquear alguém que nos desagrada muitas vezes temos nosso nome ali exposto sem nunca haver uma retirada.

Virtualmente, seja na melhor ou pior intenção, seja por mera displicência ou facilidade em desvirtuar a concretude, temos todas as chances de sermos irremediavelmente irresponsáveis e fazer do nada uma nova guerra, vencer o tédio com uma antítese cujo veneno se instala à distância. Mas se pensarmos assim vamos querer negar os atuais tempos e sabemos dos benefícios, combinação de idéias, testes, conceitos, sensações que podemos trocar com o mundo todo e que dura em si pelos efeitos da memória, embora muitas vezes não é nada fácil fazer amigos ou colegas virtuais.

As redes têm suas regras mas, exatamente por isso, as redes precisam quebrar as próprias regras de vez em quando, é o jogo. Se uma rede de relacionamentos tem uma “regra” de que não se deve pedir amizade a um desconhecido, se assim fosse ninguém iria conhecer ninguém. As primeiras pegadinhas sempre são pessoais.

Relacionamento: SOLTEIRA/SOLTEIRO. Interessado em: HOMENS/MULHERES (e às vezes ainda há um acréscimo: À PROCURA DE UM AMOR). Daí alguém pede amizade e vem a advertência: ESSA PESSOA SÓ ACEITA AMIZADES DE PESSOAS CONHECIDAS.

Quem manda é o “cliente”, e se alguém denuncia um pedido de amizade de um desconhecido vai causar prejuízo parcial para aquele que pediu, dependendo do caso vai levá-lo a um reinício, mas o denunciante pode perder a oportunidade de conhecer, saber, entender, receber.

Um mundo mergulhado na forma mas que, só pela forma, é incapaz de se manter. Os profissionais estão presentes, mesclados, precisam vender, aquecer o mercado, divulgar, dar o toque físico à encomenda, entregar em casa. Um amador pode virar profissional, o risco é perder o prazer em prol do lucro, o hábito cair na obrigação; ou ainda, se o amador nunca foi inteiro, como seria o profissional? Inteiro, sim, mas apenas tecnicamente.

Alcovitagens sempre existiram, ocupar-se da vida alheia faz a vida mais tolerável, o tempo passa mais rápido. Dentre as regras de tudo que se refere a relações interpessoais, por tudo que é alimentado por força de aquecimento, jamais se pode esquecer o poder do ódio e da fofoca, tanto quanto por toda mídia e imprensa sempre haverá brechas que possibilitem a geração de polêmica, mesmo gratuita, não se pode desprezar a receita que isso movimenta.

Os complicados gostam de complicar a vida alheia. Existe aqueles sites que oferecem várias vantagens aos seus assinantes especiais (pagos), como por exemplo o tal do (corrijam o burro se ele estiver errado) “efeito nuvem”, onde uma mensagem pode ser mandada sem deixar vestígio, e portanto o tal “efeito nuvem” corresponderia, grosso modo, às cartas-bomba feitas pela guerra fria (essa mensagem vai se auto-implodir em… segundos), embora seu conceito venha de bem antes – muito tempo já se passou desde que cartas secretas, escritas à mão, eram queimadas após serem lidas. Evidentemente que um tal “efeito nuvem” é um serviço inestimável aos apaixonados anônimos, embora muito sirva aos chantagistas, aos covardes e criminosos em geral. Não tem serventia aos burros.

O homem das cavernas também devia ter suas prevenções, tinha algo parecido com idéia, por vezes era atingido por algo parecido com amor ou ódio e projetava em pedras algo parecido com declarações, raramente se arrependia. Eu nunca soube de alguma pesquisa científica atestando que o homem das cavernas apagou alguma “arte” que tinha feito em pedras.

A quem pode é difícil resistir à herança da espionagem, vão buscar informações sigilosas e, sendo de má fé, vão utilizar-se disso onde a lei não atinge, embora nem sempre. O julgamento à distância busca pistas, pesquisa a pessoa, corre o risco de não ter todas as informações que precisa, ou ter informações falsas. O julgamento é a cara de quem julga e os burros têm muita dificuldade em discernir.

Eu sempre fui burro, sou burro confesso, e como todo burro vive errando no óbvio é tão óbvio o erro do burro que o burro precisa da maior obviedade possível, repetidamente, para poder ter alguma noção do quanto é óbvia sua burrice. Quando adolescente fui morar numa rua que chamava Pitágoras mas não sabia quem era Pitágoras além daquele teorema, e só futuramente saberia da numerologia por Pitágoras. Nas postagens anteriores eu havia usado abordagens da numerologia sem dar referência, fiz do notório um descuido, do descuido um erro, do erro uma culpa. E nem sou esotérico, sou é tão burro que não me dou conta das coisas mais óbvias.

De burro, estranho haver tanta gente que atua na área de Exatas e encara a numerologia feito estorvo. Eles são inteligentes, estranham minha burrice, fazem cálculos por coisas práticas, a importância do lucro onde as contas devem ser encerradas no crédito. Se toda unidade tem o zero presente, se dele vem e a ele volta, o que vale é o meio, é óbvio. O elo exige a revelação e a revelação exige o momento.

E por falar em numerologia ouvi de um conhecido que pretende fazer um projeto-lei que incentive o brasileiro a ter mais os números 7 e 8 nas letras do nome, disse que são letras bonitas e somos deficientes nelas e, mesmo apostando que a oligarquia iria temer que esses números mudassem a cabeça dos eleitores, ainda assim ele gostaria de ver uma discussão desse nível em Brasília, e eu acho que seria animado. Voto em branco é voto zero.

Não é ruim virar um zero, mas o problema é quando a pessoa vicia. Quando eu morava na rua Pitágoras foi bater lá um desses caras da TFP e, para puxar conversa, ele disse que eu morava numa rua de um ótimo nome, depois me convidou para os visitar em uma de suas sedes, no que fui quando soube que serviam lanches lá. O burro vive com fome.

E havia vários jogos medievais lá, jogos de mesa e de campo, além de lutas. A maioria dos visitantes queria mesmo era lutar karatê e, claro, comer o lanche. Na hora da luta escolhi o membro mais forte deles para bater à vontade, e ele aguentou firme porquê, por recomendação de seu instrutor, ele não devia revidar. O cara tinha o dobro do meu tamanho, e foi somente depois de apanhar por vários dias que seu instrutor lhe permitiu revidar, levemente, apenas querendo me assustar, e embora não tenha assustado para mim perdeu toda graça. Com todo respeito ao lanche, fui embora e nunca mais voltei.

Não sei se os caras da TFP entendem de numerologia, não é da minha conta. Não sei ao certo qual é a daquela gente, não é da minha conta. O lanche que serviam tinha pouco tempero, isso já é mais pessoal. Não entendi direito a maioria dos jogos, mas sou burro. Foram tolerantes comigo, mas não sei se seriam com todo mundo. Na época eu estava conhecendo umas turmas diferentes, até mesmo uns ditos politizados xiitas.

Todos sabem o que querem os xiitas, mesmo quem não sabe sabe. Vivem aprontando, querem acusar, não importa a posição que assumam, direita ou esquerda, ditos defensores da ordem ou subversivos, são intolerantes. Eu não os tolero, sou burro.

Tinha um desses, que se dizia comunista-subversivo, colega de colégio, que por um período mostrou-se disposto a ser cordial comigo, foi inclusive me levar em casa com sua mobilete várias vezes. Eu gosto de mulher, não consigo comer homens em pensamento, isso basta a um burro.

Esse colega que me dava carona tivera sido criado com uma fervorosa turma de classe média que cantava músicas católicas, para depois ter essa fase comunista-subversivo. Ele dizia que a gente tem de resolver os problemas além dos pensamentos, buscar contato com o inconsciente, mas eu sempre tentava fazer um esforço bem menor, já tinha certa consciência de que era burro e, mais que isso, abaixo da média da burreza.

Por fim ele acabou desistindo de mim por causa de uma grotesca confusão que fiz entre Nelson Rodrigues e Nelson Gonçalves. Eu sou mais que burro, sou desinformado.

Nessa época eu tinha começado a fazer teatro, por conta própria, mas ainda não sabia direito quem era Nelson Rodrigues. Fazia teatro e nunca tinha assistido a um espetáculo de teatro, tinha escrito uma peça sem nunca ter lido uma, dirigia e atuava como ator, todos que participavam era gente da periferia. E esse colega, uma vez sabendo disso, certa vez ao me dar carona e parar sua mobilete frente a minha casa disse que Nelson Rodrigues era um grande dramaturgo e, eu, pensando que era o Nelson Gonçalves, disse que era um ótimo cantor, que sem dúvida alguma que eu era fã, e ele espantou-se, disse que não sabia que Nelson Rodrigues era cantor. “Canta muito”, eu disse.

O comunista-subversivo foi embora se informar melhor, depois disso nunca mais me deu carona, nunca mais me deu atenção. Tempos depois de subversivo ele virou um daqueles carinhas que andam pintados, nem sei o nome, todos pintados no rosto e no cabelo com grande franja no rosto. O desgraçado tinha uma irmã loira, nunca me ajudou a comer aquela loira.

Quando conheci um pouquinho mais Nelson Rodrigues li que ele se afirmava reacionário, eu queria ser reacionário, depois descobri que o final da peça que eu tinha escrito, onde uma cega branca e racista descobria que seu namorado era afro-descendente e largava dele, era uma idéia que já tinha sido usada por Nelson Rodrigues. Foi horrível, broxante, mortal.

Doutra feita foi a vez de outro cara que tinha o mesmo perfil do anterior, uma rebeldia, uma revolta, algo meio indefinível, um dito intelectual de esquerda que também me deu carona – também de mobilete, muito comuns na época – até a frente de casa e, quando a gente conversava, ele disse que adorava Arnaldo Baptista e, eu, imediatamente, disse que conhecia muito desse cidadão – eu estava confundindo Arnaldo Baptista com Amado Batista. Como sou burro.

Esse ao menos não virou a cara, até gravou uma fita-cassete do Arnaldo Baptista para mim, uma grande revelação, e eu gravei uma do Amado Batista para ele, igualmente uma grande revelação para ele que não conhecia o Amado e, ele, inclusive, ficou tão embasbacado com o Amado que veio me fazer declarações do tipo: “Um gênio da coletividade, um cronista do povo, um mpb da simplicidade, um bossa às avessas, um latino-americano do cotidiano, um driblante da ditadura, um… um…” Eu não entendia nem metade das palavras que ele falava.

Gente complicada parece gente sem definição sexual, gosta de gente burra. Às vezes dá para se divertir com gente complicada, tem uns que falam até sobre o fim do mundo e o fim do mundo vem sendo pregado desde o começo do mundo por gente complicada e acho até que o primeiro sermão religioso deve ter incluído o fim do mundo na boca de algum complicado. Na época do colégio eu via o trabalho de imagens feitos pelas igrejas, imagens e contra-imagens, um espelho gregário por uma imagem maior que não podia ser tocada, a proibição por substituição, dava por entendido que as igrejas eram lugares onde não se podia ter opiniões, onde toda opinião ficava engasgada na garganta virando uma espécie de monstro sem controle.

E via também o outro lado, onde era possível ter opinião ao risco de cada um, e inclusive participei de um debate em que alguém disse que o verdadeiro deus já estava descoberto desde que a máquina tivera começado a substituir o homem e, eu, que já vinha de burrada em burrada, não era inexperiente, levantei o braço para falar e disse que a pedra lascada já era sintoma de maquinicidade, no que alguém, que nem levantou o braço, teve a piedade de dizer que a intenção manda e obedece quem quer.

Foi um debate emblemático para mim, só não quis fazer o burro complicado, complicava demais a interpretação, e acho também que eles não eram bons atores, devolviam a bola muito quadrada. Burro tem o direito de ser um pouco complexado. Depois daquele debate estive em mais uma dúzia, pela vida toda, se muito, e certamente saí de todos antes do fim, em muitos casos antes do começo.

Um burro não precisa falar nada, ninguém lhe obriga. Melhor apenas sentir e, alguma coisa, ao menos, um burro ou outro às vezes sente. Um burro que sente tem uma chance a mais de entendimento mas, quando entende, só depois que todo mundo já entendeu. Um burro, se mira, erra. Se quer fugir do erro, erra mais ainda. Sua única chance é acertar sem querer. O burro tem a vantagem de que uma vez que sabem que ele é burro nunca esperam nada dele, sabem que o burro não consegue ter mais de uma intenção e, muito ao contrário, frequentemente não tem sequer intenção alguma no que faz, não está preparado para elaborações, é burro, e contudo a dureza na vida do burro é quando pensam que ele não é burro ou, pior, quando pensam que ele é inteligente ou, ainda pior, quando ele tem de explicar que é burro ou, pior ainda, quando não querem acreditar nas suas explicações de que ele é burro. O burro odeia viver lembrando aos outros que é burro, sabe que precisa fazer isso para sobreviver mas odeia.

Um burro tem direito à iniciação pela burrice, é sua chance de atingir emburramento absoluto e não mais ficar derrapando no relativo, e as cadeiras disponíveis não são para todos. É preciso, mais que a própria burrice em si, exercício e preparo, além de ter um passado impecavelmente burro, tem de ter sofrido muito por causa da burrice, é uma questão quase espiritual. Quando um burro adquire plena capacidade em ser burro, entende que seu maior esforço sempre será provar que é burro, e que quanto mais ligar a aparência ao íntimo mais vai desenvolver uma imagem irretocavelmente burra, sua busca por perfeição é que um dia ninguém mais precise lembrar que ele é burro e essa compreensão profunda do burro se dá pelo fato de que todo iniciado burro, por mais burro que seja, uma hora precisa entender que todos já nascem com o direito à imagem e que para muita gente a imagem vale mais que quem está por trás dela, daí o burro vai absorvendo a imagem que faz para fora e a trazendo para dentro, com a ajuda de todos, catalisa a própria burrice e jamais abandona o esforço de fazer algo que lembre a todos que uma vez burro sempre burro.

A árdua caminhada do burro é como quase todas as outras: ele precisa se profissionalizar. Um burro profissional é visto como confiável e alguns até o usam como confessionário em momentos de crise, aliviam-se, embora isso possa causar uma certa confusão em quem se confessa, pode fazer quem se confessa pensar outra vez que o burro pode não ser burro, mas isso é provisório e tão logo se recuperam voltam a enxergar o burro como burro.

O burro apresenta todos os motivos do mundo para ser difamado, é foco do ódio democrático, embora por vezes a diversidade odiosa se choque entre si em diferentes conflitos de opções quanto à conceituação definitiva dos predicados mais adequadamente agregados ao burro e, convocando urgentes reuniões extraordinárias para a discussão do caso, para impedir a dispersão do asco concentrado as diversas vertentes acabam tornando o burro uma espécie de paradigma do desprezo universal e da factualidade aversiva.

O burro se alegra em ver fios conectados a carne e osso, chama isso de futuro. Adora ver todos presentes na tela se multiplicando, chama isso de casa de espelho. O burro vai na lanchonete e vê adolescentes lado a lado conversando entre si por aparelhos, fica feliz em saber que estão tão adiante na idéia, tão distantes, tão ausentes, chama isso de tempo. O burro lembra-se das antigas aulas da escola, quando a professora disse que os índios achavam que espelhos “roubavam a face”, mas isso é coisa que ele nunca entendeu e ele sabe que é melhor nem comentar senão vão lhe explicar o quanto é burro e, se ele ficar tendo de ouvir explicações acerca do quanto é burro, e ainda por cima depois ficar esperando a menor nota possível por sua burrice, isso levaria um tempo que ele poderia utilizar para emburrecer mais a fundo, mais intensamente, mais amplamente e na medida do possível mais rapidamente.

Um burro vê fotos de bebês que não sabem que estão sendo fotografados, vê filmagens de crianças que não querem ser filmadas, assiste pais judiando os filhos aos risos e não entende por que é que depois publicam só para aparecer oficiais de justiça batendo na sua porta. O burro nunca entende o fim das piadas, quando chega no meio ele já se perdeu, ou riu antes da hora ou nunca mais vai rir. O burro prefere adotar que fazer, mas de vez em quando precisa fazer e é justamente aí que adotam o que ele fez, e o burro não entende, acha que a lei da paternidade não presta para ele só porquê ele é burro. A tudo o burro acha que existe um sentido inteligente, mas não gosta de falar disso senão vão lhe chamar outra vez de burro.

O burro também pensa, sabe que é preciso isso para continuar sua burrice. Alguém, que o burro não lembra quem, disse ao burro que é preciso uma mínima e essencial noção da própria imagem, porquê se o valor está na imagem a imagem quer se valorizar, no que o burro foi tirar uma foto para ficar diante de si mas, como não viu graça alguma, publicou para todos verem, logo disse que mais importante que a foto é a postagem e, quando se deu conta, estava fazendo para os outros mais que para si, e descobriu que uma vez tornada pública uma imagem era difícil reverter as cópias. O burro olha o espelho e não vê um espelho, só vê uma sombra.

Alguém disse ao burro que imagens não mentem por natureza, que a natureza não mente, mas que são usadas para mentir, e disse que os textos estão frequentemente a serviço da imagem. O burro quis saber se é a imagem ou o texto que vem primeiro, e qual dura mais, no que recebeu por resposta que o tempo gasto à toa nunca fez parte da natureza.

O burro certa vez ouviu, não sabe de quem, que não se pode viver incessantemente num mundo utópico, mas que é necessário o utópico para se existir na realidade, e para dar sequência na conversa o burro disse que durante os debates da escola era possível encontrar ele comendo o que a cantina oferecia de disponível, e que comia também o que restava dos outros.

Não se sabe quem disse ao burro que se tudo que é imagem for prisão, tanto quanto tudo que é estômago, história e desejos, só seria possível sentir-se livre, na maioria dos casos, após conseguir liberdade condicional, no que o burro, para alimentar a conversa, perguntou se existia foto de utopia.

O amigo de não se sabe quem disse ao burro que talvez fosse mais fácil entender o livre estando preso que simplesmente livre porquê, uma vez livre, no sentido pleno, não se sabe o que todos seriam. O burro perguntou se já tinham levado o caldeirão da sopa embora, e se havia algum prato esquecido na mesa, e que fazia um ventinho frio.

O amigo do amigo de não se sabe quem disse ao burro que nem o vento é livre, que depende de outros fatores, e que contudo uma vez independendo de conceitos é livre o vento agindo em si mesmo e obedecendo sua natureza sem necessidade de conceituá-la, e que todos têm problemas com o vento tanto quanto com a água e outros elementos da natureza, mas que todos precisam deles para existir e que, se um dia for possível dominar suas ações, eles deixarão de existir, ou melhor, vão se transformar em algo que definitivamente será impossível dominar. O burro ficou muito feliz, disse que a digestão ajuda a ficar calado, e que sempre adorou quando todos têm certeza de que ele não entende.

O amigo do amigo do amigo de não se sabe quem disse ao burro que o vento não tira foto nem carrega imagens, apenas se modula sobre elas, e que o vento não é nada burro, e o burro disse que essas coisas se aprende com o tempo mesmo sabendo, o burro, que seu tempo nunca iria chegar. O burro acredita que seu tempo não sai do lugar.

O amigo do amigo do amigo do amigo de não se sabe quem pegou o burro na saída da escola. O burro pensava que era mais uma briga que lhe esperava, só não acertou no tipo de briga. O amigo do amigo do amigo do amigo de não se sabe quem disse que os mais velhos diziam que os tempos passavam cada vez mais rápido, e que se o burro pegasse um filme, fotos em sequência viravam imagens em movimento, que antes as pessoas se moviam por menos motivos e que agora os atletas estavam correndo mais, batendo recordes. O burro disse que com tanta evolução era preciso um burro de vez em quando para carregar as tralhas sem perda de tempo.

O burro sabe que todos sabem tudo antes dele, todos sabem que ele é burro antes dele lembrar mais uma vez que é burro, e de tudo que já não entendeu na vida admira os poetas que são os que menos entende, acha que os poetas cantam para uma mulher.

O burro vê pessoas vigiadas por câmeras, muita gente querendo burlar isso, todos temendo serem flagrados numa ação anti-ética, percebe que sem tempo suficiente para parar o tempo passa mais rápido, que pensando em tudo menos em si o tempo passa mais rápido.

O burro quer falar. Todos os agregados dentro e fora do burro não têm efeito algum, querem que o burro fale. Mas sem agregados o burro não sabe o que falar. Não é que ele tem vergonha, é que ele precisa enrolar, precisa provar que merece fazer parte da formidável torcida pela passagem do tempo, e o burro só sabe enrolar quando não sabe que está enrolando.

O burro lembra que disseram que quem espera algo não sabe se terá mas que isso ajuda a passar o tempo, dá nota 5. O burro lembra que disseram que tem gente que reclama que vê o tempo passar mais lento mas nunca tentou viver sem esperar nada, dá nota 5.

O burro se identifica com a dimensão do tempo por uma questão de limite. Se alguém faz uma viagem num espaço fechado da partida à chegada, ou se alguém faz uma viagem de ponto a ponto previamente marcados, o burro dá nota 5. Se alguém vai até a esquina e tropeça no meio do caminho, o burro dá nota 5. O burro só dá nota abaixo de 5 a quem fica parado, e dá com louvor. Se alguém sair correndo para longe do burro sem tropeçar e sem olhar para trás, ele dá nota 10. Se alguém abusar ao invés de avisar, o burro dá nota 10, com ênfase no zero.

O burro já ouviu falar de uma realidade transpondo outra, mas isso sua cabeça não consegue medir, dá uma nota qualquer. O burro já ouviu falar que intercessão de cada vez mais elementos num mesmo espaço exige mais velocidade, mas se o burro não sabe qual rumo isso segue dá uma nota qualquer. O burro só dá uma nota a si mesmo quando se pega andando em círculos.

O burro nunca diz, mas já viu câmeras demais, acha que imagens roubam tempo, acha que é impossível vencer o tempo por que ele nunca deu passo algum.

Everton Bortotti

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raro céu limpo

OSSO

 

Coisa de dez anos atrás vou ao boteco da esquina e compro cigarro, quando estou prestes a sair ouço ao meu lado:
– Cerveja?
Me viro e lhe vejo com copo numa mão e garrafa quase cheia no balcão, dali puxo um copo para mim enquanto ele comenta:
– Caminhantes.
Ele se referiu às estradas que percorremos à pé em nossa juventude sendo ao final disso que nos vimos pela última vez, de lá para cá fiquei calvo e sua cabeleira ficou grisalha.
– Astolfo.
Ele me chama de Casto, designação que outros raramente usam. Bebemos olhando a rua até secar a garrafa no que o balconista por conhecimento de causa nos serve mais uma, então o Astolfo lembra de algo que vem de antes das estradas:
– E teatro interferente?
Levo um gole antes de responder:
– Faz tempo que parei ponto com.
Ele lembra duma quando eu como diretor pedi a ele e o ator Crovão correrem no calçadão gritando assalto resultando na necessidade de que eu fosse na delegacia tirar os dois de lá, daí lhe digo que por falar no Crovão foi com ele que fiquei com a última garota coisa de dez anos atrás no que ele diz que às vezes é melhor ficar sozinho, nisso pergunto:
– Papel passado?
Confirmando com a cabeça ele diz que se fosse perfeito estava feito e deduz que para as relações darem certo as pessoas devem diminuir 90% das cobranças, quando lhe digo que me casei algumas vezes sem papel passado ele quer saber mais:
– Chifrou ou foi chifrado?
Explico que usei a sacanagem dentro dos casamentos e que, agora, devido à longa falta as mulheres de meu passado nunca foram tão amadas por mim.
– Então – ele tem das suas –, agora que tua memória sexual te distancia, está vendo que sacanagem? Eu acho que irrecuperáveis como você se casam mais de uma vez e idiotas como eu se enganam por mais tempo. Minha esposa é muito simples.
Ele diz que por sua simples ser muito ciumenta isso minou a relação mas, como não quer se separar dela para evitar dilapidação dos táxis que administra, então segue com:
– Certo embaraço de divisão. A simples vive cobrando satisfações sobre meus trajetos, nos dias que não volto pra casa.
Daí ele confessa que a simples tem as razões dela já que, por fato, uma amante anda lhe tirando sua razão e que:
– Penso que só se descobre amar a esposa quando pensa nela ao transar com outra e, como isso não ocorre comigo, está explicado porquê a intimidade fora do casamento pode salvar a convenção com contravenção íntima. Embora…
Ele fica um pouco num silêncio engasgado e dá uma respirada maior antes de dizer que “infelizmente” essa amante “ultimamente” anda insistindo “justamente” em casamento e que, não querendo perdê-la, anda interpretando a relação de forma relativamente séria e inclusive tentando convencê-la, sem muito efeito, que já nem mais toca na sua simples para não traí-la, e quando começo a dizer que de fato é sério todo relacionamento tanto quanto é lindo e tudo mais ele, como raras vezes faz, me interrompe:
– Gosto dela mas não por motivos conjugais.
Enquanto somos servidos pelo balconista com mais uma garrafa o Astolfo me diz que fez questão de conhecer sua amante num bordel na intenção de fugir da convenção e, agora:
– Que fogo. Até nos bordéis a convenção me persegue e, pra piorar, ela agora anda me jurando que nem mais frequenta o bordel pra casar comigo.
Sabemos que tem casal satisfeito em que homem tirou mulher de bordel e, se é que já não acontece, talvez um dia serão as mulheres que vão tirar os caras dos bordéis, mas eu não diria algo assim para um Astolfo meio desolado como está em sua questão com sua amante não muito simples; então apenas acompanho seus goles grandes de esvasiar o copo até que ele diz:
– Claro que não vou permitir que uma amante faça uma besteira dessas e, por falar nisso, que bom te encontrar…
Ele até ri e pega seu celular entrando na sua agenda, enquanto procura algo eu lhe digo:
– A vida é corrida mas sempre dá pra encontrar alguma brecha no trânsito.
Quando ele encontra o que quer me mostra a foto de uma morena e pergunta se consigo ver aliança no dedo dela, no que lhe digo:
– Ela é bonita.
O óbvio suplanta detalhes e ele chamando o balconista pede a conta incluindo latas para viagem; a tarde sem nuvens está partindo e olho a escuridão se aproximando do céu junto a todas as linguagens se tornando mais claras para quem está habituado a sombras.
– Por sinal – diz o Astolfo –, um de meus táxis está estacionado ao lado.
Enquanto ele paga a conta eu arremato o resto da garrafa e pego as latas para viagem; quando vamos rumo ao carro ele diz:
– A vida é assim. A sacanagem gosta de se acomodar e é preciso encontrar soluções pra que o trânsito flua.
Tão logo entramos no carro ele envia uma mensagem de celular para sua amante avisando que o rei está a caminho depois do quê eu comento:
– Locomover-se sempre foi um forte teu. Sempre notei o quanto fica animado quando pode usar teu incrível senso de direção de quem sabe aonde quer chegar.
Ao espaço do destino partimos; abro uma lata e tomo liberdade de ligar o som onde tem uma seleção de músicas românticas, nisso o Astolfo ri dizendo que não acendi um cigarro até agora no que respondo que nem vou abrir o maço devido a altivas condições mentais, então a voz do rei me dá o enredo no qual devo interpretar meu personagem e comenta que o melhor teatro não tem ensaio e que:
– Com amigos se pode ser o que se é mesmo quando se está interpretando e até mais aí. Quando nós dois cotejamos aquelas estradas por vias sem fim a cada passo no desconhecido sempre fomos os mesmos, e agora também aqui. É.
A noite já está moça feita quando chegamos na frente da casa que a morena quer deixar rumo à casa dele e do banco da frente vou para o de trás enquanto ele pelo celular a avisa que o rei a espera ali fora; uma música depois ela aparece toda bem arrumada e tão logo entra no carro com uma traseira de primeira linha o Astolfo começa executar o enredo primeiramente lhe dizendo que por acaso me encontrou, velho amigo, no que balanço a cabeça em concordância, em seguida ele diz que vai me levar para minha casa pelo quê nem balanço a cabeça e quando o carro entra em movimento ruma para a região central que não é onde moro, pelo retrovisor vejo que os olhos da morena são belamente firmes seja olhando para a frente ou para o Astolfo e canto com o carro algo sobre olhos negros, logo depois ele diz para ela que nós dois já fomos mochileiros em seu modo elegante de designar trecheiros e ela nada diz, depois percorremos em silêncio um pedaço da cidade até que ele me pergunta se estou por acaso afim de tomar algumas numa lanchonete próxima no que faço hum hum conferindo que já tomei quase todas as latas presentes, minutos depois chegamos frente à lanchonete e após o desembarque sigo atrás dos dois com os olhos na morena, ao entrar no local lembro do Crovão com quem estive da vez anterior num ambiente assim social e quando sentamos à uma mesa o garçom é rápido em atender o rei.
Uma vez me dedicando ao copo ouço o Astolfo tecer alguns elogios para a morena depois do quê ele passa a nos discorrer ao acaso:
– Por aí tem um monte de lascados sem forma, não? O questionamento é a base do conhecimento e lascado não tem propriedade da pergunta, ou não sabe a fazer ou a faz em prol de uma resposta pronta e, também, tem lascado que usa o termo matar a dúvida só em função de evitar o movimento. A partir da interrogação chegamos na exclamação e as duas juntas interligam as pessoas acionando novos entendimentos…
O Astolfo segue falando em reticências várias e eu procuro um ponto final numa mesa de bar o que é estúpido. A morena ainda não disse uma palavra e eu olho discretamente para ela evitando a malícia que me parece coisa com mais de uma intenção enquanto só tenho uma. Quando o Astolfo diz a ela que sou artista de teatro ou palavra não vou ficar lhe questionando sobre meus questionamentos acerca de ser ou não ser e quando ele nos diz que é bom ter amigos porquê amizade é forma pura eu penso que para mim a mais pura forma é sexo, quando ele dá uma pausa sugestiva ela entende que deve se pronunciar e por falar em pergunta é sem me olhar nos olhos que ela pela primeira vez usa sua palavra comigo:
– Você acha que fama ou dinheiro afastam o amor?
A pergunta não me pareceu nada indiscreta e sua voz não me mostrou nada além da pergunta em si, não chegou a ser fria e antes foi profissional inclusive tendo usado uma expressão até inteligente. Então tento ser bem sonso na resposta:
– É questão estatística, basta evitar equívocos e interesseiros.
Ela novamente fica em silêncio e o Astolfo ri comentando sobre a boa vida em que as pessoas não entram em divergências de opinião nem apetites de conhecimento, enquanto ele segue na idéia estou acrescentando em pensamento que fama me atrapalharia porquê não gosto de aparecer e dinheiro me incomoda porquê não tenho sendo prova disso a última vez que estive num banco 24 hrs quando o caixa engoliu meu cartão, claro que não vou falar da minha timidez porquê ela pode duvidar nem vou falar da minha situação econômica porquê seu rosto bonito pode fazer cara feia e por falar nisso se o Astolfo a conheceu num bordel foi pagando todavia se ainda paga não é da minha conta, em termos de conta eu não saberia a diferença de cifras com mais de um dígito e seja como for desejo a morena sem limites de crédito, seu rosto tem leves sardas no atraente conjunto.
Ela agora se levanta e sem uma palavra vai ao banheiro, vendo ela ir me confesso em silêncio que a traseira dela já tomou conta da minha dianteira ao passo que o Astolfo aproveita para me dizer o que pensa ser necessário de modo a não ter de pensar novamente:
– Casto, não quero que ela se sinta uma puta, entende?
– Da seguinte forma – lhe digo. – Se o sexo é suplantado pelo amor na transcendência essa morena é pura metafísica de sexo amoroso. Eu diria que o corpo não é nada sem alma mas sendo o primeiro que a gente vê no caso do dela por ser tão belo entendo que ela carrega o estigma de chamar atenção primeiramente por ele, é um corpo que faz bem aos instintos e caso instintos não sejam nobres podem ser amigáveis de modo que o amor só pode estar no meio disso. Pra ser mais prático não gosto de amar putas porquê isso dói então pra mim ela jamais será puta.
– Ok – ele entende a seu modo –, então tua concepção de sexo é caso de poesia que fala da alma mas vem do corpo, o corpo desperta os instintos que despertam a alma e assim você não conhece a alma da puta mas pode ver seu corpo que pode amar como se fosse alma desde que não a veja como puta. Só tome cuidado com o sanatório.
– Loucura pura, Astolfo. Pra facilitar vou interpretar meu amor por ela no conceito de passageiro que só passando faz sentido desde que seja bem passado pra virar passado, assim estarei pensando no presente como passado de modo que a poesia ou se for o caso a loucura estará protegida no seu canto.
O Astolfo mostra-se satisfeito e diz que é bom amar com divisões enquanto eu sei que não falei o que realmente sinto porquê já estou amando a morena num presente infinito o que afinal é problema meu. Quando vemos ela voltando do banheiro é na traseira dela que minha dianteira está focada e minha dianteira pensa pouco mas imagina bastante.
– Poesia pura – comenta o Astolfo.
Ela senta-se à mesa olhando para o Astolfo sem uma palavra e sei que está pronta para ele, sei que minha presença só é válida para ela por causa dele e penso que por não a conhecer posso me projetar nela com mais facilidade ficando meu sentir em suprema margem de liderança sobre minha alma que está de quatro para os instintos, sem dúvida a vejo de modo tão elevado que o certo seria me acalmar antes de levantar da cadeira.
Por falar nisso o Astolfo pede a conta no que o garçom vem correndo, daí o rei paga inclusive deixando caixinha e depois se levanta dizendo que está na hora de voltar ao carro, então a morena se levanta e vai atrás do rei no que vou atrás dela com uma mão na frente da calça.
Tão logo chegamos lá fora o Astolfo abre carro me dando a frente para ir ao banco de trás no que entro rapidamente para ter tempo de ver a morena entrando, quando ela entra tem uma sentada e tanto e isso chega a me agonizar, tão logo o Astolfo liga o carro automaticamente surge o som ambiente e uma vez em movimento o rumo é a saída da cidade onde na BR tem vários motéis, enquanto a música fala por nós olho a morena pelo retrovisor e sei que sou velho mas perto dela me sinto novo em folha, após umas duas músicas o Astolfo faz introduções na idéia que carrega falando a ela que sua amizade comigo é predisposta a certas cumplicidades sendo que ela só ouve e sem um pio ao passo que eu balanço a cabeça em concordância, ele diz que se lembrou de uma fantasia particular sua que consiste em ser assistido no ato por um amigo e depois espera a reação dela que por opção primeiro dá uma pausa, depois ela pergunta:
– Porquê homem só pensa em sexo?
– Homem não pensa só em sexo – alega o Astolfo. – Nem tudo tem a ver com sexo e as pessoas erram quando pensam que tudo tem a ver com sexo. A vida está cheia de outras coisas pra se pensar além do sexo e o Casto vai assistir do ponto de vista poético.
Minha cabeça de cima está balançando em afirmativa com a cabeça debaixo e o resto do corpo também concorda. A morena diz que se vou apenas assistir então é porquê não gosto de mulher porquê nenhum homem fica só assistindo e que sou poeticamente muito estranho e que:
– Se você, Astolfo, é amigo de um poeta estranho, por acaso gosta de homens estranhos?
Ela está de cara fechada para o Astolfo que, por sua vez, vai de pontual:
– Amizade é parâmetro de liberdade. Eu e o artista aí nos masturbamos pensando em mulher o que significa que gostamos de mulher. Agora em respeito ao velocímetro coloque fim em reflexões desimportantes e se decida: vai ou não?
– Eu só vou – ela diz – porquê te amo.
– Idem – responde o rei.
Nisso eu quase falei “idealmente idem” mas pensei que ela podia perguntar a respeito de ideais e eu não saberia explicar. Agora acabamos de entrar na BR e enquanto os motéis vão passando ao nosso lado se o Astolfo pedisse minha opinião poética eu indicaria o mais próximo deles mas o que ele faz é dizer a ela que dessa vez a vai levar num que nunca antes foram “pra renovar os votos” sendo que para chegar até o tal passamos por outros levando mais umas músicas, quando na entrada dele nem fila tem e logo o carro é estacionado frente a uma suíte, saindo dali vou atrás dos dois e uma vez dentro da suíte vou pegar uma lata de cerveja enquanto o Astolfo liga o som ambiente, quando sento numa cadeira fico vendo os dois dançarem.
A luz ambiente é suave e dançando eles vão tirando a roupa. Penso que é bom saber que o Astolfo me apresentou uma linda mulher feito parceiro caridoso que gosta de mim por amizade e, a morena, se quiser gostar de mim por desejo seria muito bom e se não quiser poderia ao menos fazer de conta que gosta mas acho que ela nunca nem vai pensar nisso porquê só pensa no Astolfo ou talvez nem pense em nada além do casamento ou talvez nem pense para querer casar porquê não se vive só de pensamento nem o pensamento é dono do querer, contudo em termos de casamento para o bem de todos nesse momento ela ainda é amante de Astolfo e então penso que somos quase normais logo depois pensando que para não pensar em nome de outros então somente eu sou quase normal.
De repente a morena dá um tempo na dança e, se virando para mim, sem me olhar nos olhos é para o Astolfo que pergunta:
– Tem certeza que teu amigo, o estranho poeta, não é viado?
Eu raramente me olho no espelho mas toda vez que me olho sei que estou vendo um hetero; agora estou olhando os olhos pretos dela que não me olham nos olhos e por conclusão tenho certeza de que sua boca precisa ser ocupada urgentemente, nisso sem querer lhe comento:
– Não precisa cortar água com faca. Você quer me comer com a mão? Acho que não? Que confusão. Ninguém aqui quer entrar na cabeça de ninguém, livres pela cabeça cada qual é um quem. Eu talvez já tenha sido um pouco bonito e até meio rei, mas isso não é só coisa de gay.
Querer rimar de pau duro nunca é boa idéia mas também nem sei se ela me ouviu porquê só quer saber do Astolfo; por falar em idéia a dele é ficar atrás dela e ao pegar nos seus ombros a vai girando, quando ela fica de costas vejo ali muito significado e por falar nisso ele me garante que até hoje somente ele já usufruiu da traseira dela e que sempre será o único dono da traseira dela, e já a morena de costas fala:
– Tem certeza que teu amigo…?
O Astolfo a vira de frente para mim e ela me olha sem ser nos olhos como se estivesse olhando quem nunca fui no que lhe digo que em termos de contradições só as tenho na cabeça e jamais no corpo, estou pensando em algo de seu corpo e rimo algo com palco no que ele passa a falar ao pé do ouvido dela:
– Meu bem, ele não é teu dono. O teu dono sou eu e vou tratar tudo feito uma situação experimental de conscientização.
Seguindo a falar ele vai administrando-se sobre a vontade dela passo a passo e acho que cada passo que ele der nessa relação ela nunca vai estar no mesmo dele ao passo que eu nem quero pensar em tantos passos, vejo os seios dela sendo acariciados por trás e imagino minhas mãos ali.
– Tem certeza que…?
Ela não abre mão da boca para falar; mas o Astolfo a está amansando pelo ouvido:
– Meu bem, ele não parece pensativo? Mas eu te garanto: ele não está pensando nada, só está te contemplando.
Ele falou por mim em nome de um objetivo maior e quando a morena de novo diz “Tem certeza que…?” eu penso que gosto tanto da sua voz que ela vale mais que todas as perguntas do mundo bem como todas as respostas e, quando de novo ela diz “Tem certeza que…?”, eu pergunto diretamente ao Astolfo:
– Posso beijar a boca dela, rei?
Perguntei a ele porquê a morena é meio machista e ele representa o centro da maioria, então perguntar a ele é justo até pelos valores dela. O rei diz a ela que tenha piedade de um cão carente e me diz:
– Beijar, pode.
Me levanto e o rei me a passa; é até gentil o beijo que ela oferece e, se tem mais, eu quero:
– Posso?
O rei diz a ela que um cão carente merece um pouco mais e decreta:
– Só isso, pode.
Gosto dessa morena que tem algo que não tenho e por isso mesmo e, se cheguei a pensar que podia estar com raiva dela, era mesmo tesão; caio boca entre suas pernas e tudo me gera coisas díspares fazendo minha cabeça por completo até que a cabeça esvazia e finalmente o tempo esvazia sendo essa a única posse razoável embora nunca dure para sempre e, parado na dela ali agachado sob suas pernas, a seguir ouço o Astolfo me dizendo para que ela seja entregue à cama, tão logo a deito na cama ele me pede para que eu grave um pouco com o celular dele o que vai acontecer e me dá o aparelho apontando onde devo acionar a gravação, com a cama aos dois passo a gravar em pé com celular numa mão e cerveja noutra sendo que quando o Astolfo monta nela fico tentando me imaginar no lugar dele porquê é assim que funciona a cabeça do punheteiro tal como quando assiste um filme pornô se projeta no lugar do ator com a atriz sendo por isso que existem atores de vários tipos para preencher a imaginação dos vários tipos de punheteiros embora nesse quesito o Astolfo tem um perfil físico mais largo que o meu inclusive tendo engordado um pouco e além do mais a morena é pequena fazendo com que ele apareça demais na fita só dando para ver o cabelo dela lá em cima junto com a metade do seu rosto feito um pedaço de todas que já amei, eu gostaria de filmar ela em destaque mesmo porquê ela própria parece pedir isso e então ao Astolfo digo:
– Rei. Deixa ela subir.
Todavia eu falei mais em tom de súplica e isso ele deve ter estranhado porquê sempre soube que sou um cão que não bajuleia, mas o que importa é que ele a manda subir e uma vez assim feito eu agora a tenho em vários ângulos conforme lhes vou rodeando e, quando o Astolfo me pede para que eu tome conta da traseira dela, logo a seguir deixa claro que apenas em termos de gravação:
– Como sempre por trás é exclusividade minha – ele profere.
Mas é um ciúme louvável o dele e ela sabe como é, ela diz que só faz o que ele manda e que jamais deu nem dará a traseira a outro; já eu particularmente estou com um problema por estar justamente filmando a traseira dela e até me arrependo de ter pedido ao rei para ela subir porquê isso está ficando radical demais comigo não podendo desviar os olhos da gravação feito escravo em que a câmera é minha corrente, a imagem dela é meu tronco de suplício e minha imaginação faz o resto, nesse sentido quando termino de beber a cerveja jogo a lata de lado ficando com uma mão livre mas, penso, se punheta é grande declaração amorosa não haveria a menor justiça se eu me perdesse nisso devido ao momento tão promissor de interação com a morena, em seguida penso que se todo punheteiro de valor sabe que quando fica muito tempo sem mulher tem de bater uma antes de um encontro para se controlar melhor eu hoje não bati e, olhando a morena por inteiro, sinto o perigo pelo modo com que ela se mexe e ao meu ver essa moça não pode ficar solta por aí, então penso que já nem sei mais para onde balança minha cabeça e já até temo gozar sem bater punheta e, querendo brochar, chamo o Crovão para lhe dizer que homem me broxa mas o Crovão nem aparece, também quando tento conversar com o Astolfo de outros momentos ele nem aparece e também quando convoco uma reunião com amigos nenhum aparece, sei que é a traseira dessa moça que expulsa meus amigos e, querendo dividi-la com outras para torná-la menor, procuro enumerar todas as mulheres que já tive por ordem de chegada de modo a encher um harém mas só ocupam um canto de tenda, daí passo a sentir saudades de cada uma em cada momento particular de modo a gerar mais valor individual mas, logo, estou pensando nelas junto da morena, daí querendo pensar mais penso sobre o diacho da gente que já sabe que não pode voltar no tempo mas sente saudades, que diacho de passado que vem lá de trás para ficar falando com a gente e querendo se mover sem sair do lugar, penso que uma das tolices é querer voltar ao passado e sobretudo quando se quer encontrar a felicidade como se ela lhe pertencesse sendo que toda felicidade do passado é uma triste luta da memória feito querer refazer um caso de amor com um defunto, penso na tolice que é querer amar alguém que não existe mais tal como era ou pior ainda alguém cujo tempo deu conta de mostrar que nunca foi o que um dia se pensou ser, imagino que a surpresa mais agradável que poderia haver nas relações seria descobrir que alguém que parecia ruim não é tanto mas, a isso, quem se arrisca?, na imaginação vejo cadáveres mudando de feição para de novo rasgar a tela tão duramente feita e no rasgo vejo a traseira da morena, penso que tudo está ficando duro demais e fugindo ao pedido do Astolfo passo a focar outras partes do corpo dela para me distrair chegando até uma mão sua na qual imagino algo meu nela, sua mão é macia e brilhante sendo a melhor mão que já conheci e até melhor que as minhas duas juntas que amo profundamente, se ela me desse ao menos sua mão eu a trataria bem pelo resto da vida e significaria muito para mim.
A bateria de um celular dura quanto? Não sei. Mas já se passou o espaço de um período sendo melhor deixar a gravação de lado mesmo porquê o Astolfo pode precisar do aparelho mais tarde, por falar nele o leão está com a língua de fora e precisa de recuperar o fôlego enquanto eu preciso de outra coisa.
– Já está bem gravado, rei.
Nisso ele dá uns tapinhas na bunda dela em forma de sinal e ela desce ficando quieta ao lado, daí ele dá umas dez respiradas e depois olhando sério para ela lhe diz:
– O chifre mútuo não vai sair destas quatro paredes.
A morena nada contesta e vai ao banheiro se lavar que é coisa que eu não pedi e principalmente que o Astolfo não pediu, ela vai se lavar por vontade própria e independentemente de ficar comigo por causa dele por mim essa é a lavagem mais importante que ela já fez na vida, prefiro acreditar que ela jamais se lavou do mesmo modo para outro e o resto é irrelevante. Dou o celular para o Astolfo que lhe põe na roupa ao chão e sendo sua a gravação nunca a verei ficando meu depender inteiro da memória; daí ele vê que estou em pé meio distante e brinca na idéia:
– Sei que você costuma divagar. Mas como vai transar vestido?
Então tiro quase tudo ficando só de cueca, em seguida pego outra cerveja e fico bebendo em pé no que ele também quer divagar um pouco:
– Muitos foram submersos ao longo do caminho e ainda bem que sobrevivemos aos tomadores, ocultos dentre destroços guardamos alguma verdade mas, pra falar em verdade, só mesmo escondido porquê se for publicamente vira uma moda na qual o diabo é o primeiro da fila. A verdade é pela justiça e pra ser justo tem de lidar com loucura, ao lidar com loucura o método não pode paralisar a fantasia.
Então ele começa a rir e sabe o que vai acontecer. De repente a morena sai do banheiro e arranca minha cueca para me abocanhar, feito servo em pé estou perdido. Ainda ouço o Astolfo:
– E mesmo que isso nada tivesse a ver com justiça, seria justo. Bem justo aí está o Casto, parece um santo despido com uma cerveja na mão mas, narrar a cerveja, é desnecessário, faz parte do seu figurino habitual e seria até pornográfico narrar.
O Astolfo de vez em quando faz piada na hora errada, mas não consigo ficar bravo com ele e nem a morena deixaria; ela já me calou com sua boca e com ela põe uma camisinha e, se ele não usa camisinha com sua amante, ela determinou que vou usar nessa noite da breve vida de cão, eles já se conhecem e sendo eu estranho para ela de nada adiantaria lhe dizer que estou de sangue limpo, então vamos os dois para a cama onde subo nela de frente.
– Já sabe, né? – o Astolfo é romântico incorrigível. – A traseira é só minha. Mas pode passar a mão.
Se o rei me deixa passar a mão atrás dela isso dá certinho porquê sendo pequena meus braços lhe cobrem até um dedo chegar lá e, nesse momento em particular, se o rei sabe mas não pode ver, os fatos ficam somente entre eu e ela, e prefiro apostar que ela nunca vai contar a ninguém sobre o jeito que estou fazendo com ela mesmo na presença do rei.
– Pois é, Casto. O amor e o sexo sobreviveram até hoje pela verdade. E os prazeres por fora também são por dentro. Pois é. Entre passar e ficar pra sempre tudo que existe é identificação de pensamento, sendo que só o sexo diferencia.
Acho que sei o que o Astolfo está fazendo: ele fala para tirar parte de meu foco e me impedir de gozar rápido. Depois dele falar mais coisas que não lembro a morena resolve subir e é ela que manda, daí tenho de tirar o dedo de lá porquê ela quer minhas mãos segurando as dela para se apoiar mas essa também é ótima viagem, com ela em cima posso ver bem seu rosto que não me olha nos olhos e indo de quieta ela manda muito bem enquanto o Astolfo ajuda minha contenção falando e por vezes rindo mais e do mesmo modo, sabendo da existência dele eu sinto ciúme com o qual fica mais difícil gozar e por falar nisso penso que a morena não tem ciúme de nada que venha de mim porquê só pensa no Astolfo mas nisso penso um pouco demais de modo que a presença do Astolfo vai me deixando cada vez mais mordido pelo ciúme cão, sei que foi ele que me a apresentou mas tenho de me confessar que nesse momento o detesto e, quando lembro ter focado a traseira dela que me foi negada em conhecer por dentro, o ciúme aumenta e nisso logo entendo que ter ciúme de traseira é o pior de todos e o porquê de tantos crimes passionais e tantas tragédias por causa da traseira, claro que não vou atacar o Astolfo por isso porquê essa não é a natureza de um cão grato e logo também estou pensando que eu deveria ter explicado ao Astolfo que só consigo gozar quando me sinto somente eu e a mulher e com ele falando sem parar não vou gozar, sei que poderia gozar assistindo ela em cima dele ao me projetar no seu lugar mas agora quero esquecer a presença dele ao menos por alguns instantes e penso que sou um ciumento esquisito, penso que se a morena me quisesse como amante com o tempo eu seria um amante tão amante da amante que nem lembraria que a amante é amante de outro mas sei que ela não me quer como amante e só está comigo a pedido do Astolfo que não tinha nada de estar aqui, que droga.
Após desenvolver algumas teses percebo que o andamento está bom para a morena que se solta cada vez mais estando a viver bons instantes sem cálculos ali em cima, para sua nova vontade ela vem se debruçar sobre mim para a gente fazer coladinhos no que me dou conta de que o Astolfo parou de falar, agora está tudo muito bom e com minhas mãos livres penso em voltar com o dedo atrás dela mas, ainda bem, não executo isso porquê justamente na traseira dela chega o rei, até levo um susto e sem dúvida me sobe uma baita raiva porquê agora tenho de sentir o cheiro de macho dele e ainda por cima com seu bafo de leão, eu não posso tirar ele de cima dela nem o eliminar dessa noite mas ele não tinha nada de ter entrado no meu momento, querendo me abstrair penso que não sendo o ciúme culpa de ninguém também não é de quem sente e luto contra meu ciúme que juro não ser culpa minha mas essa luta eu perco porquê ciúme é ciúme e nele sempre há mais de dois, eu não queria o Astolfo aqui o que não me parece o caso da morena que se mostra em boa adequação no meio de nós dois, ela grita mais alto que tudo e pede mais e no meio disso de vez em quando também nos chama de viados, e eu acho que o Astolfo sempre será por ela chamado de viado mesmo quando a comer sozinho e sobretudo quando ela estiver no estado em que está contudo se ela faz crítica errada na hora de gozar por outro lado goza imensamente e eu gostaria de ter ela só para mim mas apenas do pé até a boca, ela não tinha nada de ter trazido o resto da cabeça junto.
Até que chega o momento no qual o forte rei leão é finalmente abatido, cai de lado e mia um pouco antes de apagar. O Astolfo é homem que goza na frente de homem e isso me parece até desrespeito mas se ele sabe que tem homem que mata homem que goza na sua frente tendo até homem que mata homem simplesmente por desconfiar que o outro é capaz de gozar também sabe que eu não mato ninguém, ele sabe que se possível só ponho na arena os canalhas que gozam da desgraça alheia e até apagado sabe disso e é bom saber que está apagado, tê-lo ausente é tudo que preciso dele por algum intervalo e afinal a morena está mesmo cheia de saúde, ela inclusive gostando de falar no ouvido encosta sua boca no meu cochichando que sabe exatamente o que quero de especial com ela e que sabe que se eu não tiver isso vou sofrer demais no futuro, garante que está com certa pena de mim e que tem suas razões sobre total controle e, afastando a boca do meu ouvido para pela primeira vez me olhar nos olhos, ela ri e nem sei se chamo isso de covardia ou coragem, ela ri e seus olhos riem e depois seus olhos rindo dizem que já pensou muito no que quero de especial com ela desde que me viu, então voltando a colocar sua boca no meu ouvido diz cochichando para que eu a siga e depois desmontando vai para o banheiro, nisso vou atrás e é ela que manda.
No banheiro ela dá uma volta para que eu veja tudo e diz que não foi à-toa que ela me atraiu até ali, diz que negocia de acordo com suas razões:
– Eu amo o Astolfo. E se você me ajudar a casar com ele, eu dou o que você quer.
Ela foi sincera e além do mais está bem-humorada.
– Não sei se tenho tantos poderes – lhe digo. – Mas minha vontade está nas suas mãos e particularmente estou convicto de que a jornada dos dias lhe será favorável.
Então ela liga o chuveiro e debaixo d’água se lava dizendo que faz um preparo especial para mim, depois se vira de costas e diz que seu casamento terá de ser perfeito com vestido de noiva e cerimônia ao passo que eu tomado emoção até lhe prometo que se for o caso serei padrinho de casamento, depois lhe peço que a partir de agora ela não mencione mais homem algum e então debaixo da água iniciamos eternos instantes sob o reinado de sua traseira soberana, havendo um espelho na nossa frente nele a morena não me esconde os olhos e inclusive também quer falar mais logo dizendo que o próprio destino anda atrás e talvez por isso às vezes é tão duro lidar com ele, diz que o destino vem daquilo que já foi e fazemos algo para lhe alterar no presente enquanto ele nos persegue, falando ela me ajuda a controlar a cabeça debaixo e para ajudar também uso o recurso de levantar temas, até penso que o pensamento salva e que nunca pensei tanto quando ficava com outras como se agora estivesse procurando algo mais fundo, perseguindo sua traseira sinto a morena sendo vencida pelo próprio corpo que a seu modo grita valorizando toda expressão e feito rainha louca por um instante ainda pronuncia um viad… mas nem termina a palavra porquê foi agraciada por convulsões, nisso eu por louvação até quero lhe agradecer pessoalmente por estar encerrando tudo sem sua crítica mas não sei seu nome e também não vou perguntar porquê seria invadir demais a privacidade de uma desconhecida, lembrando que sempre fui aquele que come quero ela junto ao fim e estou loucamente apaixonado por ela mas claro que também não lhe farei uma declaração dessas só para estragar tudo com tamanha inconveniência, prefiro me ater a seus gemidos que são enfeites de som e já nem mais dá para contar os momentos nos quais viramos multidões em dois, os olhos dela absorvem tudo e numa traseira assim a gente se sente no trono sendo o resto só besteira, no fim só sinto.
Depois voltamos para a cama e deitamos cada um de um lado do rei que até ronca. Eu não durmo e ela não sei. Leva umas quatro horas para o Astolfo acordar e quando vamos para o carro é sem uma única palavra, nele voltamos ouvindo mais músicas românticas e o maço de cigarro nem sei onde ficou.
Claro que o Astolfo por mais magnânimo que tenha sido pelo que me ofereceu queria que minha presença entre os dois fizesse a morena deixar de lado a questão do casamento mas, por fato, tempos depois quando nos cruzamos na esquina, não no boteco porquê o Astolfo estava de passagem e eu parei de fumar, ele me disse viver um duro equilíbrio sendo puxado por dois lados com ela a lhe cobrar casamento bem mais que antes e sua esposa ciumenta a lhe cobrar satisfações sobre seus trajetos bem mais que antes, essa foi a última vez que o vi e lhe falei que caso ele se casasse com a morena seria a primeira vez que eu faria parte disso sem a velha ânsia no estômago.

Everton Bortotti

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antes porém

ZAPEIO

Vivemos o presente enquanto damos passos, agindo estamos dando passos, dando passos estamos nos distanciando do presente, quanto mais próximos do próximo passo mais próximos do presente, quanto mais projeção sobre os passos a serem dados mais expectativas ao futuro. As metas se renovam, mudam ou se alternam de acordo com a necessidade, com a visão, com a oportunidade. Se alguém acertar pode ter de aprender mais tarde, e se errar pode aprender mais rápido mas, se errar e tratarem o erro como crime, daí o julgamento vira um jogo lançado.

E claro que o erro pode ocorrer em decorrência da experimentação, foi assim que muita coisa se iniciou no mundo. As experiências sempre foram feitas com elementos diversos da natureza e do espaço, pela premissa do maior controle possível sobre o erro, e se o risco é necessário para o avanço quanto mais risco mais necessidade de técnica. Um professor pode permitir que o aluno erre, para que o aluno aprenda. Os chefes podem dar margem de tolerância aos erros, compensados pela produtividade de subalternos.

Quem toma decisões pode ter ajuda de conselheiros e assistentes, utiliza-se das informações mais concretas e dos aspectos mais viáveis, e a melhor decisão deve atender aos interesses pelos quais se está comprometido, embora os interesses podem se alterar de acordo com a alteração das perspectivas envolvidas. Quem decide pensa pelo conjunto, assim de certo modo o conjunto é chefe de quem decide.

As empresas se utilizam de pesquisas, suprem as necessidades do mercado pela soma das necessidades dos consumidores, cada índice pode influenciar outro índice e cada consumidor pode influenciar outro consumidor, quanto mais amplo mais implicações. Na mídia, do mesmo modo que expectadores acompanham as programações, também podem ser acompanhados através de medidores de audiência. Na rede, as navegações dos internautas vão além de controles remotos, as opções são incontáveis e é possível se manifestarem incontavelmente e, uma vez que ninguém está fisicamente frente a frente, isso causa uma sensação de impessoalidade que lhes permitem ficar mais à vontade para se manifestar e, quanto mais se manifestam, mais fácil esquecer, assim fornecendo pesquisas com alto índice de espontaneidade.

As empresas podem fazer fusões obedecendo a demanda dos consumidores que têm os mais diversos motivos, paixões e razões. Os produtos disponibilizados podem ter forma física ou de conteúdos, podem ser mais parecidos ou mais distantes que os anteriores que cumpriam a mesma função, ou podem ser produtos novos para novas funções. Os consumidores quanto mais pagam mais privilégios têm, por vezes também podendo se tornarem sócios de um negócio em que os valores investidos determinam o poder nessa associação, podendo os investimentos serem de valores monetários ou mais conteúdos ou agremiações. Conteúdos podem gerar mais conteúdos, agremiações podem gerar mais agremiações, ambos podem gerar valores monetários ou associar-se a produtos físicos com valores monetários.

Em termos de conteúdos muitos apostam que uma mercadoria valiosa é a privacidade, consideram que o interesse que ela desperta é sólido o suficiente para investimentos e que a rede é um ótimo local para o início desse tipo de negócio e de onde se pode, justamente, associar-se a vários produtos físicos expandindo-se em várias outras portas de investimentos.

Tudo pode começar quando alguém tem a idéia e chama outros para montar o negócio em sigilo, ou monta o negócio em sigilo e depois chama outros para se associar em sigilo, ou um grupo já formado monta o negócio em sigilo a partir da idéia: “Vidas particulares, mostradas em seu andamento, não contam com um final prévio!” Os sócios convidam outros sócios em sigilo que convidam mais sócios em sigilo fomentados pela idéia: “Curiosidade é motor de negócio!”

E a partir daí, se as mercadorias de base serão privacidades, eles as vão procurar na rede tendo por regra o fato de que as mercadorias não devem saber que estão sendo procuradas, sendo que algumas das procuradas são daquelas que sempre quiseram se mostrar, seja por solidão, seja para se promover, e ironicamente não sabem que estão sendo procuradas, embora outras jamais suportariam saber que estão sendo procuradas.

Quando se têm um grande número de privacidades os sócios partem para a sua venda que, por sua vez, são feitas em privacidade para compradores que, por sua vez, são escolhidos ao invés de escolherem, podendo comprar cotas em forma de expectadores ou de sócios – se forem expectadores devem saber que os sócios podem lhes acompanhar e não terão total acesso sobre as privacidades, e se forem sócios devem saber que os demais sócios poderão tanto assistir quanto fazer lances de associação sobre as privacidades às quais têm cotas.

“O que isso quer dizer?” “O que isso tem a ver com isso?” “Onde vai dar isso?” O jogo já começou e as privacidades são peças dele sem saber que são.

E uma vez no seu início os sócios sabem que ele deve ser ampliado, para isso logo indo expor o empreendimento aos estudiosos de diversas áreas do conhecimento, sendo que esses estudiosos devem primeiro se tornarem sócios para poderem fazer seus trabalhos em espaços especializados obedecendo aos critérios de imparcialidade.

Cada proposta dos estudiosos, a partir de uma série de catalogações, classificações e sub-divisões, é discutida entre os sócios com argumentos vários e, pelas diferenças de interesses vários, tais discussões são encerradas através votações em que cada cota de cada sócio tem direito a um voto, pelo peso de decisão. Com a aplicação das primeiras propostas votadas compartimentos de curiosidade e interesse são definidos, isso facilita a atração de novos sócios e expectadores.

Logo em seguida os estudiosos apresentam análises das manifestações das peças que não sabem que estão dentro de um jogo e propostas para suas edições para serem apresentadas como chamariz a potenciais patrocinadores para os quais já estão disponíveis espaços abreviados de atuação, bem como apresentam opções para descontos promocionais, minimizações de valores e tabelas de reajustes e complementos de caracteres para bases de rendimentos, esse material é igualmente discutido e votado pelos sócios.

E conforme os patrocinadores ingressam no jogo os estudiosos já apresentam aos sócios propostas sobre as melhores formas de fazer inserções dos seus conteúdos para interação das peças que, uma vez votadas e introduzidas, uma vez que esses conteúdos são por elas comentados espontaneamente as suas manifestações servem, junto aos comentários dos expectadores as peças e os produtos, tanto para os estudiosos os proporem como argumentos para as promoções de produtos fora do jogo quanto para ampliação ou desenvolvimento das particularidades das peças que podem ser negociadas de modo privado e que, pelo sistema de privilégio de cotas, excluem os próprios expectadores que, por sua vez, podem querer se envolver mais com o jogo e comprarem cotas de sócios, assim o sistema de privilégio segue o princípio da divisão que gera o princípio da atração pelo princípio da particularidade e, seguindo o princípio do lucro, toda vez que uma particularidade se tornar grande o suficiente para entrar no eixo do jogo já dever ter gerado novas particularidades a serem escolhidas e oferecidas de modo privado.

Os estudiosos também devem analisar o livre agir das peças sob a ótica dos interesses envolvidos, e verificar o quando seu atrativo de espontaneidade passa a ser atingidos por restrições e repetições e, pelo propósito do jogo, entre o particular e o conjunto, devem apontar a próxima etapa do empreendimento em que elas são induzidas a desconfiarem de que são parte de um jogo através de variadas pistas ao seu redor.

Contudo, pelo princípio da sugestão, toda vez que para elas uma pista avançar rumo à evidência de que estão num jogo tais pistas são imediatamente mudadas por outras pistas. Com a desconfiança as peças ficam agitadas e a alteração de seus comportamentos permite a obtenção de um bom carregamento de informações para a confecção dos relatórios, feitos em parceria entre os estudiosos, os analistas do mercado e os analistas da mídia, todos sócios a serviço do jogo, e que servirão para as próximas etapas.

E quando chega a próxima etapa, pela premissa do andamento, em que é revelado para as peças de que estão dentro de um jogo, isso de dá de forma particular e com informações limitadas, sem que elas saibam quais são as demais peças. Assim uma por uma vai sendo informada de que são parte de um jogo, e que a principal regra do jogo é que as regras podem ser mudadas dentro do jogo em função do jogo. Algumas peças funcionam melhor no improviso, outras melhoram a produtividade perante um compromisso, outras combinam melhor ambos os aspectos, isso altera o interesse do público e muda os valores das cotas dos sócios levando muitos a remanejar seus investimentos de uma para outra ou aplicar em outras peças além das que já aplicam, além de alterar o modo com que os patrocinadores incluem seus produtos sobre elas ou remanejar seus produtos de uma para outra.

E quando chega a etapa do jogo virar jogo aberto entre as peças, as colocando frente a frente, são feitas gincanas em que elas podem ganhar exemplares de produtos promovidos de consideráveis valores, sendo que a observação desse confrontos serve ao jogo não só para analisar sua esportividade quanto, junto a situações curiosas ocorridas entre elas ou de sua conduta individual no jogo que com elas joga, junto com o levantamento de dados que apontam a aceitação no mercado de produtos por cada uma delas testados e alterados ou não dentro do jogo, serve para formar os gráficos de sua empatia e contribuem para que os relatórios detalhando seus potenciais sejam finalizados e encaminhados aos sócios e seus auxiliares.

Toda insinuação desperta curiosidade, todo processo é intermediário. O caminho o jogo é a popularização e por seu prenúncio expoentes da mídia, de acordo com seu envolvimento com ele, dão informações sugestivas, é uma popularização que deve caminhar de forma gradual e ganhar grande impulso a partir do momento em que iniciam-se as campanhas de eliminação das peças.

As peças que vão concorrer à eliminação primeiramente são selecionadas pelos seus sócios-donos através de uma votação pelo mesmo sistema em que cada cota de cada sócio tem direito a um voto, peças selecionadas para o pleito eliminatório serão votadas por todos os sócios pelo mesmo sistema de cotas. Em suas campanhas de eliminação os sócios tentam convencer uns aos outros a votar pela eliminação das peças pelas quais têm seus interesses embora, conforme se aproxima a votação, se as pesquisas sobre intenções de voto indicarem que peças que lhes interessam eliminar não têm chance de serem eliminadas, podem se unir a outros sócios ou grupos de sócios que querem eliminar peças mais cotadas para vencer a eliminação deles que, se vencerem, ficarão devendo votos ou outros interesses a quem votou com eles, sendo que essas alterações de opções de votos podem ocorrer até mesmo pouco antes de votar, devido às pesquisas de boca-de-urna.

As eliminações se dão em função de captação e inclusão das peças no mercado onde serão utilizadas para atuações previstas segundo suas características que sejam melhor aproveitadas na promoção de produtos fora do jogo, assim as eliminadas são porta de entrada do jogo na mídia em geral e vai depender do desempenho e tempo de absorção da imagem de cada uma fora do jogo se as próximas eliminações dentro do jogo serão feitas em intervalos menores ou maiores, ou se serão feitas uma a uma ou em maior quantia a cada vez.

Os sócios-donos podem administrar as eliminadas em forma de aluguel ou se manter ligados a algumas delas através de cotas em sociedades para onde foram, ou podem as vender para redirecionar os valores em outras aplicações embora, mesmo que as vendam, devem dar determinadas assistências a elas caso seja necessário dentro de determinados prazos de acordo com determinadas cláusulas contratuais ou, caso tenham feito seguros das peças, as intermediações de assistências são de responsabilidades dos seguros pelos prazos firmados, em todos os casos podendo haver novos acordos com novas cláusulas e novos valores a serem vigorados em novas datas com novos prazos.

Já as peças eliminadas, tão logo saem do jogo, dão depoimentos focados até o momento que viveram dentro dele gerando pautas de curiosidade que, junto às pautas que forem sendo geradas em cada pleito eliminatório, vão formando material divulgativo do jogo e seus produtos que, uma vez excluindo os produtos que estão fora do jogo, pela exclusão chamam a atenção seus produtores para entrar no jogo.

Para a absorção mais ampla das imagens das peças fora do jogo os relatórios feitos sobre elas por sua passagem pelo jogo apontam seu melhor aproveitamento promocional e apresentam tanto seu perfil geral quanto suas particularidades e, se dentro do jogo particularidades podem ser negociadas em fechado para o privilégio de cotas, fora do jogo o privilégio se dá pela necessidade do mercado e, caso haja aumento de consumo de uma peça pela valorização de uma particularidade, automaticamente tal particularidade vai aumentar o valor da peça, podendo ainda as peças produzirem espontaneamente novas particularidades ou para elas serem produzidas particularidades em forma de sobressalentes e que caso aumentem seu consumo terão seu valor aumentado ou serão produzidas em maior escala pelo mesmo valor.

O aproveitamento promocional das peças fora do jogo divide-se em basicamente dois tipos: promoções de períodos maiores ou menores, de acordo com as estimativas; algumas peças tendem a tornarem-se bem-sucedidas em promoções mais específicas e fixadas de produtos de maior duração e que, quando for necessário fazer mudanças de sua imagem, de tempos em tempos, sejam capazes de as fazerem no menor grau possível por cuidadosos critérios em que um simples detalhe gera um grande efeito na marca, ao passo que outras peças tendem a ser administradas feito coringas em promoções diversas por intercalações de menores períodos ao estamparem produtos intercalados, assim capazes de mais rapidamente trocar de nomes em função de variadas validades visuais ou mesmo serem divididas e recicladas mais facilmente em função ilustrar traços de marcas, embora em ambos os casos, pelo princípio da singularidade, elas podem vir a surpreender nessas funções, com aquelas direcionadas a marcas mais duráveis mostrarem-se capazes de fazer a manutenção dessa imagem com uma maior frequência de discretos elementos criativos e aquelas direcionadas a promoções mais rápidas se darem tão bem a ponto de se tornarem especialistas que em sua maleabilidade poderão ter uma carreira estável dentro de um segmento específico.

Contudo peças eliminadas devem dar lucro, e uma vez dando lucro geram mais valor a si mesmas e crescem dentro de estruturas, e uma vez crescendo dentro estruturas podem chegar a um ponto em que se tornam sócias das estruturas ou, caso queiram fazer um acordo para deixá-las e se tornarem autônomas, podem manter com as estruturas deixadas laços terceirizados, seja negociando com elas a própria imagem, seja assumindo o papel de instrumentadoras de peças eliminadas preparando as de rápida duração para que sejam repetidamente desviadas para utilidades interligadas ou preparando as de maior fixação para ocupar novas cadeiras estáveis ou substituir cadeiras de peças estáveis que estão se exonerando, embora quando peças deixam uma estrutura e se ligam a estruturas concorrentes para as quais vão levar suas imagens conhecidas ou aplicar suas habilidades desenvolvidas causam conflitos de interesses entre duas estruturas sendo que, nesses casos, os conselheiros da mídia sugerem que se a escolha da estrutura concorrente tenha se dado sob aparentes condições iguais da estrutura anterior investigadores a serviço de órgãos confiáveis devem ser convocados para avaliar se as estruturas de onde as peças saíram as maquiaram em desligamento para oferecer serviços a concorrentes em função de obter informações internas e, igualmente, avaliar se as estruturas para onde as peças foram fizeram a elas propostas comprometedoras a estruturas anteriores, também sendo aconselhado que sejam feitos estudos comportamentais dessas peças para analisar implicâncias negativas quanto à deliberadas tendências à espionagem, o que pode resultar para as estruturas envolvidas em apurações de procedimentos irregulares e desmembramentos processuais com intermináveis disputas burocráticas ou para as peças um registro de ficha suja para a consulta de estruturas confiáveis e, nesse último caso, de acordo com os estudos comportamentais, peças de ficha suja frequentemente não conseguem se manter ligadas por muito tempo sequer em estruturas comprometedoras e frequentemente se tornam também autônomas de funções menores às quais não têm acessos comprometedores, embora se esses estudos apontarem que podem ser utilizadas diretamente pelo jogo por terem uma capacidade expressiva maior, devido a escassez de profissionais bem-sucedidos que gera oportunidades de exceção podem ser direcionadas, a título de experiência, para atuar como comentaristas de certos conteúdos, sendo que para iniciar-se nessa função primeiramente devem ser encaminhadas aos adjuntos que farão encaminhamentos aos técnicos que encaminharão suas análises para que sejam alteradas por retificadores em maior ou menor grau de compromisso, depois irão executar pequenas atividades de reprodução verbal ao mesmo tempo que serão constantemente reavaliadas por parte de assistentes de esforço de integridade e instruídas por revitalizadores de critérios éticos, até serem direcionadas como comentaristas de conteúdos desgastados, comentaristas de conteúdos insanos ou comentaristas de conteúdos extremamente racionais, e caso ainda assim, uma vez em ação sobre palavras de opinião, se algumas vierem a se apresentar perspicazes de forma danosa querendo interferir no jogo de forma danosamente atrevida, por seu intolerável atrevimento serão afastadas de modo definitivo de qualquer função relativa ao jogo ao mesmo tempo que serão atingidas com diversos recursos tais como o desacreditamento de suas palavras diante do público que inclusive fará parte do jogo para suscitar a curiosidade e aproximação de mais público num tempo que frequentemente tem pequena duração, até serem tratadas como empecilhos e, uma vez empecilhos, num tempo que pode chegar a média duração, servirão para testar a eficiência das peças que ainda são ou serão úteis ou mesmo como análise na função de diminuir o surgimento de novos empecilhos ao largo do caminho, por fim elas próprias findando por gerar um natural auto-apagamento de cada palavra sobre o jogo e, em alguns casos insistentes, podendo se entregar ao jogo como suplementos de reuso ou adubo ou, caso não queiram se entregar, serão constringidas a se tornar material em decantação.

Dentro do jogo, pela importância do conjunto, o teste de identidade das peças é constante e quanto mais cresce o poder do jogo mais cresce o poder delas, quanto mais cresce o poder delas mais preocupadas ficam com a imagem que passam e quanto mais preocupadas com a imagem que passam mais fazem conjecturas a respeito do que seriam virtudes e defeitos aos olhos do público, já logo surgindo por parte de algumas delas a idéia de que, pelo princípio de que não há unanimidade, uma imagem com mais elementos virtuosos e fracos elementos defeituosos ganharia a simpatia de um maior público, assim já logo pela imagem já estando a vigiar a si mesmas e sofrendo pressão de si mesmas na intenção de prostrar possíveis defeitos por possíveis virtudes e, desse modo, muitas já logo fugindo de sua real natureza e já logo já partindo para novas conjecturas tais como o fato de que dentro do jogo o que o público consideraria uma virtude porém apresentada num momento inadequado as tornariam foco de ataque de outras peças e que o que o público consideraria um defeito num momento adequado as tornariam mais bem posicionadas, tanto quanto muitas outras conjecturas lhes surgem de outras conjecturas e de conjecturas em conjecturas estarão em constantes mudanças de posições se assumindo ou se escondendo de modo irregular e, nisso, inclusive podendo ocorrer de muitas daquelas que uma vez tendo influenciado a mudança de posição de outra anteriormente ao mudar novamente nem sempre terá a concordância daquela que influenciou, tudo podendo causar choques diretos e indiretos que vão se refletir no julgamento do público e que muitas vezes são desnecessários ou mesmo prejudiciais ao jogo.

O trabalho dos técnicos é dobrado num momento em que tudo exige paciência, assim a paciência deve trabalhar junto com a pressa. Os coordenadores sabem que precisam desmontar a imagem que certas peças fazem e as devolver para o mais próximas possível de suas reais naturezas para o melhor aproveitamento. Os gráficos de nuances mostram, ironicamente, que algumas peças mais virtuosas, e que já foram eliminadas, se quando não desconfiavam que faziam parte do jogo agiam com displicência sobre suas próprias ações ou opiniões, ou então deixavam-se levar pelas ações ou opiniões alheias para uma melhor convivência ou indiferença, a partir do momento em que passaram a desconfiar que eram observadas vieram a mostrar mais definição e sinceridade ao falar e agir e, ao tomarem conhecimento de que eram parte do jogo, se tornaram bem mais efetivas sobre o que eram e o que pensavam. Os gráficos de nuances de peças eliminadas, combinados com nuances de comportamento das peças presentes no jogo, ajudam na melhor identificação das mais virtuosas, embora coordenadores também sabem que muitas delas não podem ser facilmente detectadas por comparações tanto quanto sabem que peças que forçam imagens não são necessariamente peças falsas e que, muitas das falsas, mesmo defeituosas, são mais eficientes em se ocultar do que aquelas apenas perdidas em conceitos de imagens, portanto sabem que ainda existem peças virtuosas e falsas ocultas.

E frequentemente uma grande ajuda para solucionar a questão, ironicamente, é quando surgem os caçadores de recompensa, pelo setor terciário, e que pela prática de seu olho clínico são capazes de identificar mais rapidamente pela aparência, ironicamente, tudo que for próximo a interferências no núcleo, tanto quanto são capazes de chegar mais rapidamente ao núcleo sem lhe abater, sendo que alguns são velhos conhecidos do mercado e esses, rápidos em localizar cabeças das peças mais virtuosas para comprar suas ações em nome de terceiros, exigem ainda mais rapidez dos coordenadores do jogo buscarem negociação com eles, e caso eles não queiram negociar os coordenadores contratam interrogadores de caçadores de recompensa que vão obter, com base em interrogatórios coercitivos, tanto as confissões sobre quais são as peças virtuosas identificadas quanto quem são os terceiros que utilizam para comprar ações, e embora não exista 100% de eficácia nessas negociações e interrogatórios por outro lado também são muito úteis quanto a identificar vários outros elementos nocivos ao jogo e os quais os caçadores de recompensa têm contatos tais como, frequentemente já presentes na periferia do jogo, os corruptos em diversas esferas estabelecidas e para os quais são contratados caçadores de corruptos que, uma vez praticada a caça, vão encaminhar os corruptos aos interrogadores de corruptos para desencadear o processo de delações e a partir daí pode-se chegar tanto a alguns novos caçadores de recompensa quanto a alguns novos corruptos.

O jogo cria regras conforme as necessidades, quanto mais as regras suprem as necessidades mais geram idoneidade ao jogo. Uma das regras firmadas entre os sócios inclui novas cláusulas de seguros do jogo dentre as quais novas garantias de se oferecer determinadas assessorias fora do jogo tais como a detecção das peças que passaram por processos corruptores e que, tenham elas sofrido pequenas avarias ou mesmo danos razoavelmente estruturais, ainda apresentam utilidades viáveis, para nelas serem feitos esforços pela sua restauração por prestadores de serviços contratados tais como os puritanos e os recauchutadores que, junto aos corretores e os profissionais preparatórios do jogo já a postos, farão o salvamento de valores ainda presentes, frequentemente sendo ações compensatórias tanto em relação ao retorno que tais peças oferecem em média quanto pelo fato de que, uma vez tendo passado por situações incomuns, geram valores agregados ao próprio currículo e ao jogo.

Por outro lado o jogo como um todo necessita de diversas ações específicas em prol de específicas ações recuperadoras, mesmo que para isso seja necessário chegar ao lado mais obscuro para seguir de volta à claridade. O filtro de critérios deve ser afunilado e aplicado. Essa é uma das etapas mais radicais do jogo e atinge todos os jogos interligados em todas as suas conexões, ramificações, acessos e interesses relacionados, é necessário uma minuciosa revisão de conjunto, por parte dos jurisconsultos a serviço do jogo, em busca de localizar tanto situações de prejuízo em estado de ação quanto ameaças latentes, e determinar as punições.

Para o afunilamento do filtro de critérios os jurisconsultos sabem que a pior pressão é a adulação e todo demagogo se entrega na síntese, que a ditadura não admite o próprio erro e quem mata exceção quer um modelo inalcançável, que a maior função do profissional é resolver contradições e que vinganças maquiadas comprometem o curso normal da justiça, que impertinências de excentricidade geram consagração dos ávidos por sensações de borda e que sensitividades corroídas por ânsias de poder geram superstições incabíveis, e frequentemente os vaidosos que chamam teimosia de convicção e os velhacos amparados em tendências retroativas, os estúpidos que defendem ignorância por covardia e os presunçosos que promovem vergonha por imitação, os adeptos da facilidade em sair ilesos de más ações e os insensatos mergulhados em escassez por discursos supressores de identidade, os planejadores de imprevistos negativos e os intituladores de auto-afirmações abusivas ou quaisquer formações competitivas baseadas em complexos intoleráveis tal como a desnecessária necessidade de se sentir superior, os grupos formados por concepções de gangues que trabalham sobre o desencontro entre seres e, muitas vezes, justamente através do discurso de união de seres, bem como os bairristas e os separatistas cujo objetivo é formar um sistema onde a maior razão é atingir a emoção e eliminá-la em forma de ilusão, são exaustivamente rastreados, em seguida sendo feitas desagregações de grupos para julgamentos unitários em turnos e, uma vez sobre aplicado o filtro de critérios, são determinadas as punições que podem ir desde multas a cortes, a serem executadas por parte dos cargos superiores de cada caso e sob a inspeção dos jurisconsultos e, caso tais execuções não sejam feitas à risca, os jurisconsultos têm poder de determinar os cargos marcados por falhas de execução que podem sofrer, dependendo da gravidade ou número de falhas, desde razoáveis penalizações a rigorosas sujeições, sendo que dentre as hierarquias menos atingidas por falhas de execução estão a dos preparadores e corretores que estão associados a diversas atividades paralelas e inclusive podem atingir níveis de importância razoável e até influir em decisões maiores dentro jogo embora, frequentemente, têm natureza mais passiva e gostam de discrição, e dentre as hierarquias mais atingidas estão as dos agentes de transformação que podem ser as primeiras a terem seus relatórios analisados.

Todavia, do mesmo modo que se toda necessidade ou definição pessoal são admitidas quando avançam rumo às necessidades e definições em prol do conjunto e todo conflito pessoal é admitido pela premissa de gerar fortalecimento ao conjunto, o filtro de critérios também é aplicado com base em projeções para novas etapas. Se a possibilidade desprende a verdade, o propósito faz a análise, e aqueles que correm riscos podem reivindicar revisões de propósitos em prol de uma segunda chance de gerar lucro na engrenagem, para isso sendo necessário se retratarem por prejuízos morais e pagar prejuízos materiais com valores correspondentes aos atingidos, ao passo que todos que se encontram em estado de confronto devem adotar legítimos critérios de ação e se oferecer espontaneamente a testes de adaptação, os interlocutores devem pedir antes de impedir e os cargos marcados por falhas execução devem pagar uma taxa ao jogo numa conta usada justamente como fundo de manutenção para o afunilamento do filtro de critérios que, ao trazer à tona antigas pendências, conflitos e questões, pode promover suas elucidações a uma parcela maior ou menor do público caso haja demanda em saberem como serão resolvidas ou gerem novos jogos ou diversificações de jogos ou lucro ao conjunto desde que os envolvidos não causem entraves a novas etapas e, em caso de reincidências de entraves, os seus causadores podem sofrer expurgos irremediáveis e afastamentos cabais. A lentidão não deve falar mais que o ânimo e o ânimo não deve tornar tudo igual, nenhuma esmola deve sair caro e o vício não pode render mais que a fome, a diferença entre idéia e ato mede a característica de realizações.

O jogo pode atravessar fronteiras e línguas e tornar-se produto universal do grande público obedecendo a necessidades diversas de acordo com os produtos e empresas envolvidas bem como os expoentes cujas platéias formadas em diversas áreas que vão desde elites específicas até o povão. As pesquisas contribuem com as regras, os dados influenciam conceitos. Expectadores seguem peças e conhecem produtos ou seguem produtos e conhecem peças, novos produtos são acrescidos ao comportamento das peças e se tornam conhecidos e novos produtos surgem agregados aos conhecidos, peças e produtos geram novas pesquisas e novas análises e receptadores fazem novas receptações, valores existentes são negociados pelo sócios e seus auxiliares podendo gerar valores que nunca antes existiram e poderes existentes são transferidos para os agentes de transformação que atuam sobre eles podendo gerar poderes que nunca antes existiram, todo novo valor e poder é direcionado pelos direcionadores de novos valores e poderes que estão associados em maior ou menor grau a toda sequência de cargos e domínios.

As apostas ilegais, feitas no câmbio negro, contam com a infiltração de espiões do jogo para que os coordenadores façam denúncias e, ao mesmo tempo, investiguem se existem produtos a elas co-relacionadas disponíveis em bancas de pirataria para pedir seu recolhimento junto às autoridades. As apostas legais são promovidas por agregados ao jogo e vão desde as apostas abertas sobre eliminações ou particularidades diversificadas até apostas sigilosas para público sigiloso, ambas podem gerar temas abertos para a mídia onde expectadores têm aparições interagindo com opiniões que podem gerar apostas polêmicas que geram mais polêmicas, apostas polêmicas são feitas sobre datas de validade de polêmicas ou sobre o rumo de polêmicas sem datas de validade e apostas apostam que polêmica nasce da decadência ou que polêmica combate a massificação, apostas são fomentadas pelas polêmicas declarações de críticos que apostam que o público determina a polêmica da crítica e apostas polêmicas surgem por conta de polêmicas apostas que apostam que a realidade pode ser conduzida com recursos de ficção para ser melhor digerida e que o que faz a diferença é o tratamento a que recebe o gênero e que se muda o gênero, onde um fato real se desdobra para tão somente ficção, quanto mais passível de ficção mais pode haver abstração, apostas várias apostam que a abstração raramente sobrevive de forma isolada e frequentemente sofre de volta o reboque de fatos reais mais ou menos amplos embora a alguns profissionais é possível manter ou acrescentar a toda condição por mais real que seja uma forma abstraída o suficiente para lhe dar leveza como o palhaço de circo se pelo gênero tem precedentes de ação é o tratamento que dá a seu gênero que lhe permite aplicar peças que aos demais humoristas poderia ser arriscado, apostas apostam que só o palhaço pode definir a graça pela graça e ultrapassar certas barreiras entre mérito e demérito e que o presente é um triste palhaço que pode ser salvo fazendo justiça ao passado pelo enfrentamento de complexos sociais de idade ancestral que existem por resultado de opressões e que, num cotidiano cujos efeitos da própria opressão já gerou novos complexos, apostam que a concomitância deve fazer o encontro de elementos distintos ditado pela evolução do pensamento individual, apostas apostam que pelo princípio do esquecimento o destino é estatístico.

O momento determina o ritmo, e se quando mais profissional mais necessidade de controle sobre o ritmo também quanto mais profissional mais pode ocorrer do ritmo tomar conta do profissional, no que se faz necessário o ressurgimento do pessoal em busca de salvar o profissional e, uma vez ocorrendo mudanças internas, elas se refletem no externo e claro que, quando se refletem no externo, de certo modo já ocorreram, o inconsciente já trabalhou o critério antes dele se tornar opinião e conforme caminhou para o consciente a opinião já foi trabalhando a expressão pelo estilo de cada talhador, havendo em termos de percentual uma influência maior de opiniões mais praticáveis e não esquecendo da natural dissociação entre os percentuais tanto quanto a natural atração de novos deles para com novos deles. Entre o que circula na tv, na rede, nos rádios a pilha e nos corredores de jornais e revistas, o reflexo de opiniões sobre o público pode causar divergências várias, e se a opinião de um talhador atinge alguém cuja personalidade vive momentos de ebulição, pela fase em que essa personalidade passa, pode comprometê-la ou salvá-la, ou ambos, embora em se tratando de fase tudo é passável. O ibope se dá pelo acompanhamento, no caso da rede pelo índice de visitas a cada página.

Internautas podem ser seguidores ou seguidos, ou os dois ao mesmo tempo. É possível escolher a quem seguir, mas ninguém escolhe seguidores, eles chegam das mais variadas maneiras, pelas mais variadas trilhas, podem ter ser dos mais variados tipos, usar os mais variados pseudônimos, estar visíveis ou invisíveis. Sites também são seguidores. Empresas também são seguidoras. E sejam pessoas físicas ou jurídicas pode ocorrer de seguidores serem perseguidores, ou ambos.

E se por trás de pessoas jurídicas existem pessoas físicas, pessoas físicas podem usar pessoas jurídicas de modo a praticar perseguições pessoais, embora pode ocorrer de pessoas físicas pensarem que estão sendo perseguidas por interesses pessoais quando estão sendo perseguidas por interesses profissionais que analisam necessidades pessoais em função de ações profissionais, do mesmo modo que pessoas físicas podem navegar tanto por motivos pessoais quanto profissionais, entre um momento e outro, e quem lhes segue pensar que o motivo pessoal é profissional ou o motivo profissional é pessoal, sem esquecer que a vontade de se ligar o profissional e o pessoal, pelas diversas aptidões, e que é um grande sonho, ou pesadelo, humano, pode gerar rasgos de conflito constantes em situações que misturam gêneros em rodízio e, considerando que entre o pessoal e o profissional existem diversos setores mesclados que podem ser tanto entretecedores quanto ongs ou comunidades e instituições de iniciativas assistencialistas ou comoções das mais variadas de duração segundo a própria natureza em maior ou menor escala de números e motivos numa infinidade de situações, com frequentes inversões pela intercalação de identidade, ou identificação, de acordo com as necessidades mais urgentes, conflito por conflito entre o profissional pessoalizado e o pessoal profissionalizado frequentemente é a parte mais íntima e pessoalizada, sobretudo quando a coisa desemboca na privacidade que é mercadoria que gera os mais variados impulsos de curiosidade que podem mover as mais variadas formas de consumo e atrair os mais variados profissionais bem amparados pela distância e pelo anonimato, alguns benéficos e outros destrutivos, que causa as maiores crises em que o profissional tenta resolver.

E seja como for frequentemente é quando pessoas particulares estão agindo por motivos particulares que se tem um número maior de experimentações traduzidas em palavras ditas de forma espontânea e sem nenhuma preocupação quanto à regras pré-estabelecidas e, se o particular é motivo de ânsias, sem o particular as ânsias simplesmente ficariam procurando o particular, tudo viraria uma bomba de vácuo, não esquecendo que há casos de pessoas tão perdidas em suas ânsias que delas fazem uma força e, mesmo quando caem no vácuo, dele fazem vários vácuos que podem se tornarem produtivos e inclusive acrescentadores ao conjunto dependendo de como a pessoa lida com isso, de como vai mesclar identidade com identificação e trabalhar o salvamento de valores, ou de si, ou de qualquer coisa. Juízo de valor, se a inteligência ganha da identidade sem identidade a inteligência não seria nada, e se a identidade não precisa ter um nome e antes é algo cravado em cernes que preferem pagar pau mais exatamente para a imaginação a quê os créditos são oferecidos de uma forma mais larga mesmo que, inevitavelmente, a imaginação nunca tenha direito de atingir todo seu cume já que o cume de sua natureza abalaria todos os cálculos, que se trata de algo predisposto a expansão a que se recorre com uma série de atributos anteriormente desenvolvidos por uma série de motivos em termos de preenchimento e inovação, raramente podendo ela toda ser utilizada de modo isolado para além do sentido de sugestões experimentadas e inclusive no sentido de aliviar o excesso de dúvidas e inclusive causar algumas delas e inclusive até de forma mais ou menos cômicas, então o valor tem seu juízo.

Várias traduções a anseios, várias outras a vácuos. Até mesmo o tédio pode determinar os impulsos, podendo tudo vir de fatos reais e nesse meio haver tanto baldeamentos de apreciações levados em forma de sátira quanto encadeamentos querendo reconfigurar a confusão ou então peculiaridades capazes de superação com soltura, também podendo ser tudo junto unido num só momento que, se passar dele, pode até desaparecer. O mundo está cheio de coisas incríveis que nunca foram ditas tanto quanto foram ditas somente para paredes tanto quanto foram ditas para quem não deu atenção tanto quanto o mundo está cheio de coisas medianas que se tornaram incríveis ao passar pela mão de quem investiu nelas. No mundo a esperança é mãe da fé e, se a fé vira política, faz o politicamente correto precisar de correção. No mundo só é eterno o que nunca nasceu o todo dogma é mérito do relativo.

Eu sou do tipo que raramente me lembro dos finais do que assisto e, quando alguém me conta algo, por mais banal que pareça, posso ficar com isso por um bom período na memória sem saber como foi que contou o final, vivo refazendo os finais, frequentemente me apego ao que ouvi mais pela pessoa que me contou e pela forma com que me foi contado e com o tempo me lembro apenas das sensações que tive em relação à pessoa que nem mais sei quem é. Receber como ato de afeição faz cada qual ter as suas e elas tem várias fontes.

Estou me lembrando de uma sequência de textos que andei lendo por um bom período e que por estar escrito não preciso me preocupar em esquecer, posso reler se quiser, ao passo que a pessoa que escreveu tende a se fragmentar na minha cabeça mais cedo ou mais tarde, mesmo porquê nunca a vi pessoalmente.

À bem da verdade foi uma sequência de emails que recebi, de uma amiga virtual em crise, escritora jovem. Ela estava abalada, até me dizia que pensava em desistir da carreira.

Assunto: FIM

(…)Na rede os recursos destinados a invasão de privacidade são exorbitantes e superam o montante arrecadado em muitas campanhas pro combate à fome e à miséria ou mesmo os custos de algumas guerras! É algo do tipo de forma toda geral pela mais ampla forma que é a forma mais específica que nos faz quase perder a especificidade e por causa disso dá na gente vontade de fugir pra antes da gente lá pra um passado onde a gente era mais inofensiva e mais feliz quando não tinha toda essa questão que é a questão que é e que é que sendo o público-alvo que nos escolhe ele pode nos chamar do que quiser tipo nos chamar de obcecada e assim ele não só nos escolhe como escolhe como nos chamar!(…)

Eu lhe ofereci pequenas palavras, tentando lhe consolar, lhe animar a não desistir de escrever, lhe disse que a rede junta a maior multidão até os dias de hoje e que é o que é, no que ela me retornou dizendo que eu lhe desse a devida atenção porquê queria me dizer algo específico mas que, antes disso, queria falar de tudo que isso a remetesse. Num outro email do FIM:

(…)E a mais absoluta questão seria mais fácil de ser entendida se tudo fosse visto de um modo que fosse tudo coisa que ladrão tudo que aconteceu comigo mas isso não é nada fácil de assim ser entendido! Não dá pra falar que é do tipo de ladrão livre que vive pegando carona na rede tipo ladrão de rede do tipo que vai e vem e acredita estar no ambiente adequado e torce pra que piore! Não dá pra falar que é do tipo de ladrão de todo tipo de ladrão que é moderno e gosta de status e que mistura tudo e não admite que oportunismo é oportunismo e roubo é roubo tipo ladrão que torna o ato de roubar em costume arraigado no avanço pelo atalho e aliás até mais que costume porquê é vício na cultura de invasão que é vício difícil de se romper e que aliás só cresce e que aliás vira até mais que vício porquê vira crença na impunidade e que aliás vira até mais que crença porquê vira ideologia porquê assim esse ladrão sente-se diferenciado e é diferenciação nefasta em prol da influência nefasta! Não dá pra falar que é tipo ladrão-professor que já passou por muitas escolas do prezinho até a faculdade e que agora é dono de privadas audiências e dá privadas aulas na burlativa triagem onde ensina como tratar o pequeno por grande e estourar o valor na ação tipo ladrão que se preciso vai e vem entre físico e jurídico até no filológico donde usa a regra travestida na alegação de que somos imperfeitos tipo assim ladrão que analisa e se maquia e infiltra-se e vive em compulsão semi-saciada e atrai tantos seguidores e tantos deles apenas curiosos de toda gama infindável de curiosos cujo tédio brutal só lhe fortalece! NÃO! NÃO é de nenhum tipo assim de ladrão NÃO que estou falando NÃO! Porquê o tipo de ladrão o qual quero me referir é outro tipo de ladrão que mau consegue ser ladrão e nem é ladrão mas age como ladrão sem admitir que age como ladrão!(…)

Seus emails chegavam quase que diariamente, e enquanto os lia de repente me lembrei de algo que me ocorreu nessa breve vida e que me fez pensar que eu era ladrão de mim mesmo, fiquei totalmente perdido por conta de ter me visto como a um espelho em diversas situações, no que findei por considerar o espelho como reflexo de uma espécie de influência de sonhos sobre uma realidade que só eu posso ver, qualquer coisa para evitar de ficar pensando em loucura porquê pensar em loucura enlouquece demais e influencia mais loucura.

Foi assim seguindo-se a sequência de emails dela, FIM(32), FIM(47), FIM(69).

(…)Assim por assim só pra facilitar sua compreensão o ladrão que mau consegue ser ladrão e nem é ladrão mas age como ladrão sem admitir que age como ladrão é tipo ladrão sem querer e sem querer é sempre sendo sem jamais ser e sempre sido sem ser e sendo, é ladrão insido e ladrão insido não adianta dizer a ele que ele não é mas age como ladrão porquê se ele não admite que é ladrão jamais vai aceitar que é ladrão e vai continuar assim agindo e assim cada vez mais será e quanto mais assim for mais não vai admitir o quanto é que é e nem é mas é sem ser de verdade e sem precisar da verdade pra ser! Entendeu? É um ladrão na ação de nunca ser inteiro e que é basicamente um não ladrão tão não ladrão que vence todo ladrão porquê nunca sendo inteiramente é muito mais que qualquer ladrão seja o ladrão que do tanto sido que sempre soube ser sempre vai ser o tanto que é em seu tanto sendo quanto o ladrão que sabe que do tanto que é nunca será o tanto sido que sempre quis ser ou então o ladrão que não sabe quase nada de nada mas sabe que é ladrão em seu querer ou mesmo o ladrão que do que não mais quer ser é o tanto que um dia quis ser ou ainda o ladrão que de tudo de ladrão que tem nele quase tudo quase sempre é ou o que reúne tudo de quase tudo de ladrão ou mesmo o ladrão que sem saber o tanto tudo que quase sempre é de todo modo é! Entendeu? Eu estou falando de um ladrão que só é ladrão na ação mas não é ladrão que a gente chama de ladrão assim sendo sem nunca ser e sendo até o fim por sempre ter sido seu jamais ser de sempre ser sendo insidamente eterno em seu ser inser tão ladrão num infinito anti-admitido e que por isso causa um problema de interpretação sem solução que só dá confusão! Eu sei que pra você pode ser um pouco difícil entender o que só eu é que sei do que é ser vítima na mão de ladrão sido tão insido e tão insidamente sido até o ponto de ser inchamavelmente de sido insendo e sendo que é e é e não é mas é sem querer saber que é sendo sempre até jamais ser em si um sendo que sempre foi e será sem ser de ser num nunca e sempre eterno deixar de inser e ser como se fosse um grande gráfico de uma grande experimentação que não deu e deu sem dar dando certo de uma grande corporação jurídica! Agora entendeu? NÃO entendeu?(…)

Seguia ela por aí, inclusive mencionando estar farta de “invasão particular e protegida!” e de que “todo ladrão de privacidade é latifundiário!”, e embora, tanto quanto ela, se cheguei a pensar em desabafar bem abertamente, porquê tem uma hora que a gente só precisa desabafar, podem nos chamar até de maníacos, podemos até gerar uma polêmica que não vai nos beneficiar em nada, mas a gente precisa, logo me dei conta de já não mais queria desabafar, talvez porquê só de saber que podia desabafar com ela já não mais precisava desabafar, embora no caso dela era sabendo que podia desabafar que desabafava, naquele momento, sendo que aquele momento, para nós dois, não era o mesmo momento, havia, para além da barreira espacial, uma barreira temporal, já que ela estava desabafando no momento que queria desabafar e eu estava recebendo seu desabafo num outro momento, e por outro lado havia o conforto dela em saber que não seria interrompida, enfim, estatisticamente ela tinha seu desabafo sob controle.

A jovem escritora estava fazendo desabafo policênico com seus motivos, mas não me dizia os motivos, apenas deixava seu verbo correr livremente:

(…)Se alguém conta algo privado a alguém e vaza pra rede alguém perde a confiança de alguém e se alguém inventa algo de alguém e vaza pra rede alguém é inimigo de alguém e se alguém que devia ser alguém de confiança de outro alguém invade esse outro alguém que navega na rede nem tem como entender que tipo de invasor é esse a não ser como um alguém ladrão sendo sem ser num sempre sendo sem jamais ser até ser um insido eterno de tanto irser e ser sendo só por agir feito ladrão sem saber em seu ser sem ser de ser sem admitir em ser! E assim o único jeito de fazer com que o ladrão que não é ladrão mas tem o defeito de agir e não saber que age como ladrão por não admitir parar de agir feito ladrão é lhe oferecer um motivo pra que conheça os defeitos ou o que julgue ser defeitos do invadido porquê se isso pode até diabolizar o invadido ao menos ele estará mais perto de ser humano porquê todo ladrão que não é mas age como ladrão sem saber nem admitir não suporta defeitos abertos porquê não entende que a única perfeição que existe é o aperfeiçoamento! Pode reparar que todo ladrão que não é mas age e não admite que age como ladrão é até capaz de amar um deus que desconhece e que se conhecesse sua perfeição não seria bem amor de um ladrão que não é inteiro e nem é mas age como ladrão inteiro! E como é que seria o amor do ladrão que é e não é e é sem ser sendo ladrão? Seria apenas ele o amor inteiro um amor desinteiro se foi roubado pelo próprio ladrão que é e não é e é sem ser sendo na ação sida e inadmitida de ser um impossível insendo de tanto infinito ser de inser sendo que ficaria o amor desinteirado só sendo amor antes de ser desinteiro e assim seria um amor dependente do passado pra existir só no passado coitadinho só por causa do ladrão desinteiro por nunca ter sido mesmo jamais tendo deixado de ser sem ser sendo tanto até tanto inser de sempre nunca ser e ser sendo!(…)

E quando a curiosidade me fez perguntar de quem ela falava o seu retorno veio em forma de atacar a “velha guarda”, e quando eu lhe disse que em todo lugar sempre teve história e lenda sobre ladrão e toda literatura tem ladrão em algum lugar ela disse que não era disso que estava falando e que eu devia saber do que ela estava falando, e quando eu lhe disse que se uma peçonha quer invadir o quarto da gente a gente tem de tentar espantá-la ela confessou que isso era impossível porquê seu quarto e tudo mais já estava invadido e, por fim, de “velha guarda” traduziu isso na forma de “gerações anteriores”, e chegou até a questão entre pais e filhos:

(…)E pais podem agir como ladrões insidos e vigiar o histórico dos filhos sem que os filhos saibam porquê estão preocupados e vivem numa sociedade com psicopatas e libertinos e indutores e canalhas e se os filhos descobrem podem se virar contra os pais que querem lhes defender e podem até gerar um culto ao desconhecido por causa da vigilância e assim buscar no desconhecido uma ilusão de privacidade por fugas inespecíficas rumo a rumos inespecíficos e assim o grau de risco aumenta embora em termos de risco vendo a palavra como chance quem sabe assim a gente pode encontrar quem cuide da gente à distância sem que saibamos quem são e podem nos amar de uma forma livre e que assim por assim seria um amor assim em forma de anonimato feito tipo assim algo assim que não tem fim feito não ter toda presença nem toda marca de mim e assim eu viraria ou já virei tipo assim alguém anônimo falando algo anônimo a outro anônimo tipo ir muito além do além!(…)

Ela estava desabafando a mim, estão confiava em mim. Fiquei a receber mais emails e algumas dezenas deles depois, perante meu silêncio, ela revelou que havia frequentado “sites comprometedores”, os quais foram flagrados por seus pais pelo seu histórico de navegação, e seus pais vieram falar com ela, pelas suas palavras, “cheios de preocupação”.

(…)Em ambos os casos por ambos os lados o totalmente pessoal e o totalmente profissional pode ser uma pesquisa totalmente total e toda pesquisa totalmente total causa uma totalitária anarquia total! Até as totais redes de relacionamentos oferecem desde totais relações íntimas até totais relações profissionais e o usuário total clica nas opções totais pelas quais está totalmente interessado podendo estar atrás somente de totalmente trabalho total ou de totalmente intimidade total ou totalmente os dois ao mesmo tempo porquê todo mundo pode ter dois interesses ao mesmo tempo do mesmo modo que todo mundo às vezes fica sem interesse algum lembrando que mesmo quando a gente fica sem interesse algum isso também não deve ser confundido com falta de identidade do mesmo modo que se a gente se encher de um monte de interesses também não quer dizer excesso de identidade! É tipo assim algo de modo a juntar tudo num milhão de coisas e depois voltar até a uma só coisa e dela ficar em duas coisas feito uma só coisa! Entendeu né? Que bom. Agora tenho certeza que você entendeu e então agora pronto e então agora sim, eu queria transformar você num INICIADO ANÔNIMO pra que sua compreensão fosse compreensiva o suficiente e agora que já te INICIEI em compreensão compreensivamente compreensiva pra compreender agora não vou te impedir de mais INICIAÇÃO ANÔNIMA e então assim por assim por todos os lados de todos os casos é assim que é viver tipo assim em medidas de pensamento estranhas porquê o pensamento sabe que nunca seremos capazes de contabilizar tanto a eternidade quanto o menor de todos os espaços de tempo e pensando nisso penso que o pensamento não tem de ficar amarrado ao tempo e sim viver tipo entre totalmente digladiar com o tempo e totalmente ganhar tempo do tempo que pode nos dar tempo já que ele é tempo de forma totalmente total e amplamente ampla! E então agora pronto de novo e então agora sim de novo e então pra continuar sua INICIAÇÃO ANÔNIMA entenda que o que vale é a amplidão do conjunto em ação que é quando a gente entende que a quem respeita o tempo também vai o tempo respeitar o tempo da gente consciente ou inconsciente e isso explica porquê é que eu posso pesquisar como quiser dentro do meu tempo e dos meus vários interesses variados independentemente da variação que quiser variar!(…)

Seguindo-se ao corpo do email ela confessou que andou vendo sites de sexo, “sites comprometedores”, e escrevendo sobre o conteúdo deles, era uma escolha por livre exercício. Em sua chateação ela achava que seus pais agora a estavam vendo como “imoral”.

(…)O que é imoral na rede? Visitar “sites comprometedores” ou invadir o espaço de quem visita “sites comprometedores”? Eu é que sou a vítima e agora mesmo que queira me defender iria me sentir ridícula já que sendo vítima não tenho de me defender de nada! Agora fico aqui, fazendo esse relatório e oscilando entre o maleável e o manipulável!(…)

FIM(186), FIM(242), FIM(…) Ela soltava-se cada vez mais e eu lhe admirava sem a necessidade disso dizer. Ela sabia que eu a estava ouvindo, email por email.

(…)Se um casal apaixonado invade um quintal pra comer uma fruta teoricamente seu erro estaria perdoado. Na prática podem ser vigiados e punidos por quebrarem as regras. Mas quem vigia quem faz as regras? O problema são os sócios majoritários! E a questão é que se alguém precisa de ninguém pra mudar a si ou alguém as mudanças já estão determinadas antes de ocorrer pela demolidora inércia da ocorrência já ocorrida!(…)

FIM(391), FIM(538), FIM(…) Daquele jeito ali eu já pensava em como iniciar outra coisa com ela, quem sabe marcar um encontro, mas não tive coragem, nem sei onde ela mora, e no esforço concluí que melhor seria fazer um apanhado do nosso momento de forma mais branda e consegui lhe transmitir a informação de que o próprio fornecedor de um jogo é peça do jogo, que tem jogo que não é feito para ter fim e onde todo ganho é temporário, que se muda o público muda a avaliação e que pensamentos alegres ou tristes, ou sem indicativos, por vezes me parecem fazer parte de apostas subsequentes, cada qual no seu momento, no que ela me respondeu que eu não tinha entendido nada, que eu não entendia nem o lado profissional, por falta de teoria, nem entendia o lado pessoal, por falta de prática, o que me fez ficar em silêncio e desse modo alimentar a conversa.

(…)E você quer que eu diga o quê se tudo que a gente vê por aí desses temas preocupantes ao conjunto social como dejetos de mineradoras feito lamas escorrendo sobre cidades feito lavas de vulcões e os lamentos de um povo entre lesões e esperanças e a faísca oculta de ações ocultas ou os desígnios sem placas capazes de ganhar o mundo desde o início só dão vontade de esquecer? Hein? Pois o culto a Onanis tem se tornado cada vez mais frequente numa sociedade com um índice cada vez maior de solteiros e o índice de orgasmos com hora marcada determina a credibilidade de muitas audiências e talvez até contando com apostas paralelas!(…)

FIM(985), FIM(…) O FIM lhe dava margem a gerar argumentos espontaneamente, era um FIM cheio de novas etapas e, quando sofreu sua interrupção, eu nem saberia ao certo como qualificar.

Porquê esse email acabou sendo, não sei se por descuido dela ou por algum tipo de rastreamento, distribuído para uma lista de emails desconhecidos que, aproveitando-se da polêmica, e publicidade gratuita, logo passaram a dar seus retornos.

Um deles dizia assim:

POR FAVOR! ESTOU DESESPERADAMENTE PRECISANDO DE TUA AJUDA! UM AMIGO QUERIDO PRECISA DE UM TRANSPLANTE E NÃO PODEMOS PAGAR! DEPOSITE QUALQUER VALOR NA C/C…

Alguém da lista, em resposta, logo se adiantou:

CARA, ESSA É VELHA, TENTA OUTRA. MAS JÁ QUE FUI INCLUÍDO NESSA LISTA QUERO DIVULGAR MEU NEGÓCIO. TRABALHO COM XEROX E ENCADERNAÇÃO, RUA… NÚMERO… SERVIÇO RÁPIDO, GARANTIDO, COM DESCONTO E SEM DESCONTO (COM E SEM NOTA FISCAL).

Dentre a grande remessa de emails que derramou-se em interferência, das mais variadas fontes, e também considerando que uma mesma fonte pode fazer muitos emails todos os dias em forma de programas ou seja lá como for, diante disso creio que a amiga abandonou seu email, pois dela não mais recebi mensagem alguma.

Não sei se ela temeu que suas mensagens fossem disseminadas mas, da lista, estavam mais interessados em se manifestar por motivos outros, e o único comentário mais próximo ao seu conteúdo foi em tom de brincadeira:

Relacionamento: Em um relacionamento SÉRIO. Interessado em: HOMENS/MULHERES.

E de resto as mensagens todas, uma atrás da outra, foram dando conta de fazer divulgações e disparates. Eu acompanhei, dessa interferência no email FIM, mais algumas mensagens que se reproduziram nessa lista fatídica.

Uma delas veio de um gozador que, aproveitando-se do título FIM, fez sua piada:

FUNERÁRIA ETERNIDADE – SERVINDO BEM E PARA SEMPRE

            Outra, seguindo a mesma linha, não deixou por menos. Um copiando a idéia do outro.

CEMITÉRIO LIBERTAÇÃO – SEJAM BEM-VINDOS E VOLTEM SEMPRE

E tomara que, uma vez gozação, que fique apenas como gozação, mesmo considerando que muitas gozações podem ser perniciosas ou, pior, podem ser prenúncios de descaminhos. Se um gozador vira um pequeno pirata, um pequeno atravessador, logo pode estar copiando os grandes que já fizeram sua escola “do prezinho até a faculdade.”

Mas, se isso ocorre, sempre haverá por parte da vítima a concepção de um novo futuro, de uma nova projeção, de uma nova probabilidade, e frequentemente melhor que antes.

Claro que falar é fácil, e essas coisas levam algum tempo para digestão. E a jovem amiga escritora, com seu email FIM, já havia feito uma digestão e tanto com sua crise. Num outro trecho ela havia dito:

(…)Nos prender a passos só pra frente é só fugir pra labirintos e só pensar no futuro é só buscar o fim que ainda não é fim. Nos prender a passos só pra trás é só dançar só com sombras que só querem sempre estar presentes só porquê não têm muita noção de tempo. E se sabemos que o tempo não usa relógio e é feito de ciclos tanto quanto sabemos que nada nunca dura muito e que se durasse tudo duraria pra sempre e seria tipo eterno que sabemos que é justamente coisa da morte embora, desconfio, se nada dura muito nem iria a morte durar tanto porquê mesmo sabendo que ela é vista como esquecimento geral feito sentença final da vida ainda assim não dá pra ter certeza porquê se todos conhecem o antes do fim ninguém conhece o antes do começo que explica o depois do fim, em resumo por resumo então fica assim que em suma é o jeito que é e que é o saber de saber por saber a saber que nem o passado é estático porquê é tudo convergência e que o presente guarda gosto de um futuro a ser feito a cada passo com sua ondulante perspectiva de retas, daí que a conjugação dos verbos não deve ser dar calotes aos passos que estamos dando pra não nos perder em ambientes perfeitos pra escorrego e sim que de um jeito ou de outro o presente é inerente e se é inerente não precisa ceder a pressões de volume ou quantidade e não que o presente seja só viver só de momento e sim que é estar presentemente pronto ao improviso e não o improviso pela conformação nem a conformação pelo improviso e sim a partir da revisão da ação e pela atuação sobre os efeitos do sido pelo melhor encaixe do sendo ao viver estágios na loteria por loteria além da loteria entre variações e integrações lotéricas, daí que fica bem mais claro que o amplo é eclético e o instante é específico em forma de suplantação e daí que se a identidade começa na comparação em que quem entende o diferente compreende ela vai terminar na unidade em que uma vez único pra sempre sozinho e daí que sozinho se encontra o valor do outro e daí que é pelo sigilo com outro que se têm prerrogativas sobre informações gerais e assim se encontra o valor do conjunto e se o conjunto facilmente cai na frieza toda frieza tem de ser combatida com partículas em máxima mutação porquê a estabilidade se combina com andanças caso contrário é uma simulação, e se vivemos uma natureza tão questionadora que é inquestionável é por isso mesmo que de maneira geral modo por modo por todos os tempos que foram e virão o certo da palavra é ser questionada por quem a deu, entendeu? NÃO entendeu? Não tem problema. É tudo questão de então por então e por isso é que é tudo questão de que sua resposta não iria mudar minha dúvida à qual coisa por coisa já é alguma coisa porquê a questão do então por então é que é tudo tão simples que é complicado porquê o então por então é o dito por dito e diga lá você agora se não é assim que é assim que fica assim?(…)

Fiquei pensando que ela tratou sua auto-estima de um modo adequado. Tem gente que se a auto-estima cai vai fazer compras e gasta mais que pode, e se a auto-estima sobe vai fazer compras e gasta ainda mais. Ela gastou palavras com o cuidado de quem lida com uma transitória matéria-prima.

E nem preciso apostar que ela sabe que o tempo fecha e liberta ao mesmo tempo e, quanto ao seu FIM, torço, que seja apenas COMEÇO.

Everton Bortotti

 

feito barro

REDE-MOINHO

Ambição, por mais que seja projetada para o externo, gera uma transformação íntima. Uma boa ambição alavanca boas ações, muita ambição pode ser pressuposto de despreparo a quem quer dar o passo maior que a perna, toda ambição causa erros e experimentos e assim acertos e conclusões, ou simplesmente outras coisas.
Ambição não regula o caráter e, conforme a numerologia, sendo o caráter a parte essencial, prevalência primeira, não pode ser alterado, embora a presença do ambiente cause um conter ou liberar mais suas características e sua ação.
O que muda é a personalidade, conforme a numerologia. Uma personalidade rígida pode ser auto-defesa se negando a novos horizontes, supervalorizando aspectos restritos e se fechando em determinadas “tribos”, assim pouco muda, enquanto a personalidade maleável pode ser mais aberta e procurar conhecer aspectos variantes circulando por várias “tribos”, assim muda mais. Por vezes, rígidos e maleáveis acusam um ao outro da mesma forma: que o outro tem problemas com definições. Acaba zero a zero.
As fases da vida seriam fases da personalidade e o caráter pagaria por elas, caso exista. Os maleáveis podem superar por sublimação, os rígidos podem defender valores humanos, os maleáveis podem cometer ações inconsequentes, os rígidos podem querer situação eternamente estáticas, os maleáveis podem fazer idealizações irrealizáveis, os rígidos podem pensar que são donos da realidade, ambos podem ter ambições variadas e não há certo ou errado por falta ou excesso de ambição, ou muito pouca, ou nenhuma – alguém desprovido de ambição pode fazer o bem sem querer ou ser um canalha irresponsável.
Alguns podem ter ambições incompatíveis a si e engessar-se, cegar-se de distintas formas, daí temos os enrustidos, os mal-amados, as tranqueiras. Isso ocorre inclusive, e fartamente, no mundo virtual, muitas vezes por gente calcada em valores de conveniência, o que pode ser inconvenientemente chato. Dia desses alguém me contou sobre o sofrimento de uma família que recebeu a notícia da morte de um ente querido, ainda jovem e saudável, diretamente pela rede, e não fosse suficiente o susto após enterrá-lo viviam querendo limpar da rede as fotos e depoimentos sobre ele, num processo difícil e demorado já que tranqueiras postaram suas imagens em páginas ambicionando um bom número de visitas por isso, assim atravancando a transformação pelo esquecimento daqueles familiares. As imagens, que tantas vezes elevam, também escravizam. Alguém um dia foi importante, agora não existe mais, gera uma projeção na rede, as tranqueiras mantêm o trauma sem qualquer escrúpulo, algumas atuando até na mídia, outras são pessoas agindo na inocência e pensando que estão fazendo um grande favor informativo e caridoso. Alguns familiares deixaram até de frequentar a rede. A rede é fria e nós a aquecemos; de repente queremos que ela queime até virar cinzas.
Tempos cibernéticos. Somos perseguidos pelo mundo virtual e que, junto à Era Digital que, diferentemente dos tempos em que fitas-cassetes e fitas de vídeos iam envelhecendo e se apagando, agora um registro pode durar tanto tempo quanto for amparado pelo provedor ou fonte e, assim, mesmo que tenhamos uma conta e parcial controle sobre nossas pastas, nunca temos o controle total, não temos o aparelhamento retentor em mãos e apenas uma senha e acesso num site onde tudo pode mudar de uma hora a outra, nunca sabemos ao certo o que temos porquê não nos pertence, estamos apenas usando. Por exemplo: temos uma pasta de vídeos em que um deles, dois deles, muitos deles podem não estar lá amanhã, porquê são vídeos os quais o provedor pode deletar ou a fonte que ali deposita tais vídeos pode sair do ar ou retirá-las. A terceirização da posse.
Todavia muitas pessoas não esquecem fácil. Muitas pessoas se apegam a uma curtida, a um elogio, e se após isso ocorre uma descurtida, um depoimento apagado, um cancelamento de assinatura, viram inimigas de quem muitas vezes nunca viram, fazem uma guerra sem ver com quem fazem, morrem odiando alguém que não conhecem, acabam até formando uma ditadura sobre comportamento virtual, querem fidelidade até o fim, não suportam uma rejeição, vivem coisas muito estranhas, se masturbam mais que nunca, terceirizam a masturbação, não aceitam a mudança porquê se apegaram a uma imagem projetada, não querem permitir ou admitir que alguém pode mudar e talvez nem melhor ou pior mas apenas diferente e não mais quer ser visto como era e não mais quer ver um defunto de si mesmo e, muitos desses, vivem trocando de pseudônimos, pelo direito do anonimato, assim sentem-se com menos prendimento e menos peso, experimentam a solidão ao mesmo tempo que se expõem.
Algumas pessoas, sobretudo de gerações anteriores, podem atuar com total inocência técnica, foi meu caso. Não sou tão velho, mas desinformado, relapso, sobretudo em termos técnicos. Por exemplo: com meu velho computador de fraca memória eu usava um programa do facebook que simplesmente travava a máquina toda vez que eu entrava nele, assim fui cancelando toda assinatura para ver se a coisa andava, cancelando curtida, etc, e eu nem sabia que os navegantes podiam ver essas operações minhas, achava que somente eu as via, mas comecei a perceber que havia gente reclamando em postagens, não diretamente a mim mas que tinha muito a ver com o que eu estava fazendo, insinuaram até que eu era mau-caráter tanto quanto insinuaram que eu não tinha personalidade e que eu não sabia o que queria, e foi somente muitos meses depois, quando já havia destruído muitas relações sem querer, feito muitas inimizades sem querer, muitos inimigos novinhos em folha, que certo serafim deu uma dica geral (serafins também frequentam a rede) de que havia um outro programa do facebook que permitia acioná-lo sem problemas, assim resolvi a questão depois de muito ranço despertado por causa de uma máquina a tal ponto que quase odiei a máquina mas, como é que vou odiar uma máquina? Ela é apenas um eco. Até mesmo culpar uma máquina já parece estúpido. E seja como for eu iria cancelar muita coisa de qualquer jeito porquê, de fato, até certa altura não estava levando o facebook à sério. A máquina guarda informações, mas não guarda ressentimento, embora possa ser ponte de ressentimentos.
Mas não sou o único a bater cabeça. É preciso voltar para ir. Continua ocorrendo de gente que no mundo virtual faz a paquera, o namoro, o noivado, o casamento e a separação, sem nunca ter se visto. E muitas vezes faz isso sem que o outro saiba que ambos estão paquerando, namorando, noivando, casando e se separando. Tem gente que se apaixona por um perfil falso, às vezes um perfil feito por uma máquina, apaixona-se por uma inausência. Tem casal que, no mundo virtual, diz que sua paixão pelo outro é perfeita alegando haver várias coisas afins sem saber o mais importante, se o cheiro do outro lhe agrada. Oras, a identificação pelo cheiro é importante, é assim que sabemos inclusive se o nosso vai bem porquê, afinal, é difícil para a gente identificar o próprio cheiro já que a gente está acostumado à gente, é difícil saber exatamente o que somos se o estamos sendo, às vezes precisamos que digam mas, como fazer isso à distância? Não tem sentido.
E tem também alguns casos de negligência que são hilários. Dia desses, aguardando na portaria de um prédio velho a passagem de uma passeata lá fora, ao lado de um velho porteiro que já passara da hora de se aposentar o vi navegando na internet por um notebook da empresa, digitando com os dois polegares, lentamente, catando milho. Ele estava numa site de bate-papo e conseguiu localizar uma sala de: APOSENTANTES. Catando milho ele digitou seu nome: Onofre. Depois catando mais milho levou uns dez minutos para digitar: “ALGUÉM VAI FALAR COMIGO?” Levou mais cinco minutos para selecionar: PARA TODOS. Mais cinco minutos para publicar. Esperou dez minutos, digitou de novo: “PORQUÊ NINGUÉM FALA COMIGO?” Publicou, ficou esperando. Ele não tinha visto que, no canto da página, havia a indicação: Sala: VAZIA. Dez minutos depois ficou bravo, mudou de sala: DESOCUPADOS. Nem viu que: Sala: VAZIA. Levou 10 minutos para digitar, publicou: “AH, CÊ QUÉ DIZÊ VAGABUNDOS, NÉ? AH AH AH!” Onofre, 65 anos. Esperou resposta por 20 minutos, tentou de novo: “ALGUÉM QUER CONVERSAR?” Sem resposta. Foi para outra sala, Sala 3: NAMORO, 60 A 70 ANOS. Nem viu que: Sala: VAZIA. Digitou de novo, dez minutos, enviou PARA TODOS: “QUANTO TÁ SAÍNO UMA SAÍDA?” Onofre, uma vida dedicada à portaria de um prédio. Esperou sem resposta por 10 minutos, desistiu, procurou outra sala. Sala 7: JAVA. Essa tinha bastante gente. Digitou letra por letra, enviou: “OI GATINHA? JÁVA?… JÁV… VAI… ÍNO? NUM JÁV… VAI NÃO. MAS SE CÊ FÔ, ENTÃO VAI INO, VAI INO, INO, ATÉ QUE JÁ ÍU…” Esperou resposta por 15 minutos, sem retorno. Desligou o computador, me falou que pensava em comprar um computador para sua casa mas sua mulher não queria porquê sua mulher tinha ciúmes de tudo, disse que sua maior ambição era ter um “caso viral”, e que estava ficando bom na coisa, e também disse que só não ia fazer o tal do “emeo” porquê não ia ficar passando seus dados a desconhecidos, e que esses “pilantras virais” nunca iriam lhe pegar.
Isso me lembra um outro caso, de volta ao facebook. Tem um cidadão lá, Presidente Geral da Associação dos Catadores de Papel de um pequeno município próximo. O cidadão não tem NENHUM amigo. Eu sou seu ÚNICO assinante, embora não exerço a nobre função de catar papel. Tem dia que ele CONVOCA uma REUNIÃO GERAL COM TODOS OS CATADORES. Tem dia que faz um discurso ATEU. Tem dia que só publica o HORÓSCOPO. Sua ambição é mudar o mundo. Já a outra, à qual além de mim também assinam seus clientes, é dona de um açougue, vive fazendo propaganda de seu estabelecimento mas, por ambição de aumentar sua renda, também vende emagrecedores.

Tem mais. Na rede a gente pode pensar que está só e, se a gente for nobre, pode pensar que o mundo é nobre, mas pode também descobrir que a gente não está só e que o mundo nem sempre é nobre, pode descobrir que estamos fornecendo combustível para os mais variados propósitos e, nem sempre, nem perto de serem nobres.

Mas o que estou fazendo aqui? Agora já sei, aqui está indo mais um filho rumo ao moedor. Mas o que fazer? Oras, muita gente morreu e foi torturada em nome da liberdade de expressão, temos a diversidade e democracia, queremos ser vistos, lembrados, mesmo por quem nos rouba, ao menos estão nos valorizando, estão dizendo que somos úteis, afinal existem uma infinidade de registros por aí que são desprezados inteiramente e só existem justamente por causa da democracia, e certamente existe detentores cujos interesses, independentemente de democracia, são de que existam os inúteis, sim, em grande quantidade, pois tratam pessoas por números e já tem uma reformatação pronta para eles ali na frente, inclusive contando com a parceria de certos “cabeças feitas” para fechar toda opinião e gosto em seus domínios.
Não é qualquer c…aráter que aguenta. Talvez a solução final seja mesmo o anonimato, quando a gente quiser mudar, ou quem sabe inventem um chip para o cérebro que delete quem somos. Claro que, com todo histórico virtual que já existe, incalculável, e com seu virtual crescimento, todos um dia se tornarão, pela fama, anônimos. Mas temo que demore um pouco.
Contudo lamento que tanta coisa boa acabe em mãos que obedecem tão somente a caprichos de audiência, essa ditadura que cega a tantos. A ditadura está presente, sempre estará, mesmo em algo que, chamado de rede, jamais terá uma só cara, uma só maneira de ser; mas toda ditadura é feita de defuntos e é tolice considerar vitória quando se afasta e perde o que poderia aplacar a tolice, é tolice mover defuntos. A anarquia é uma realidade, pode ser uma maravilha ou se tornar um caos irreversível. Quem pensa que está no comando pode cair só de perceber o quanto um comando pode ser frágil. A necessidade é de revisão constante, reavaliação, superação. O que funcionou antes pode não funcionar mais, ou funcionar ao contrário.
Convivência? Não tenho nada contra a presença dos apariçores. Mas nem todo mundo quer ou gosta de chamar atenção, e alguns amam tanto a solidão que estão dispostos a dar a vida por ela.
Gosto de coisas simples tanto quanto das complicadas, é tudo questão de momento e critério. Gosto das manifestações do povo, nasci e fui criado com o povo, desprezo o zé-povinho. Também gosto das produções de parte da elite intelectual, nada contra, desde que não se ponham, ou caiam, em estado de esnobismo e manipulação.
Gosto do ser humano em geral, ambicioso ou não, desde que tenha boas intenções. Quase gosto de pensar que do outro lado existe alguém, e gosto de pensar que ao menos alguns são amigos virtuais.

Everton Bortotti

todos os lugares onde não deu para chegar

CROVÃO, A MENINA E EU

 

            Crovão tem cara de maestro de bacanal. Crovão tem cara de orquestrador de foda em conjunto. Depois de tanto tempo o Crovão não mudou nada. Ainda bem.

            Estávamos bebendo desde as duas da tarde mais ou menos, primeiro no bar do calçadão onde nos encontramos, fomos beber um pouco num boteco da rua Duque de Caxias para espairecer com o pessoal da zona e depois voltamos para o bar do calçadão, quando aparece essa garota.

            – Essa aqui é a…

            Nunca lembro nomes, muitas vezes esqueço até o meu. Ela acaba de sair de um espetáculo que foi assistir no teatro Ouro Verde, o que significa que se for até umas 10 e meia ou 11 horas da noite que não seria de se estranhar.

            – Ela estuda teatro…

            Ela parece ter seus vinte e poucos anos, talvez menos, e pensando bem é bem capaz que seja até menor de idade só que um pouquinho avantajada em algumas partes, ou talvez seja o seu rostinho de menina que me confunde.

            – Ela será uma grande atriz…

            Já minha idade não interessa, já penso no passado como algo de fato distante e isso quer dizer que já tenho certa idade, teria de fazer muitos cálculos para atingir uma proporção aproximada e melhor não, e sendo um dos dons da cerveja fazer a gente esquecer sequer sei a década que estamos, e já o ano nem sóbrio sei. O melhor teatro que já fiz foi popular, nunca saiu nos jornais.

            – E ela também adora cantar… Telefoona…

            O Crovão é ator que sempre canta, e neste momento lhe veio Fábio Júnior na cabeça, ao meu ver sendo bem conveniente, embora o Crovão tenha um tempo estranho para cantar e a gente se perde cantando com ele mas, de perdido por perdido, já nascemos assim, fazemos o destino assim, por isso.

            – Não deixa que eu fuja…

            Eu gosto de cantar e assistir e participar, nunca fiz questão de aparecer. Estou pensando em algo meio abstrato mas que considero indubitavelmente vir da garota e isso é tudo que vale, nem carece progredir, é só deixar o pensamento em forma de bom e crescente devaneio, mesmo porquê explicar é algo que me faz retrátil, é como voltar antes da bronha, antes do mundo existir.

            – Canta aí, Alemão (o Crovão me chama de Alemão).

            Se Crovão falou isso é porquê eu não estou cantando, mas pode ser só eu pensando que ele falou isso. A gente quase nunca sabe de onde vêm os pensamentos mas com toda minha certeza de que neste momento tudo vem dela, a menina linda de boca pequena e linda, ela só pode estar querendo que eu cante em seu pensamento tenha ele sido ou não traduzido por Crovão. Só mesmo o ímpar do Crovão para atrair uma preciosidade assim.

            – Me ocupa os espaços vazios…

            O Crovão chega num ponto da música em que só canta uma parte, vai ver não lembra o resto, e a cada vez que ele repete dá um novo tom e um novo ritmo, até faz a música parecer outra.

            – Me ocupa os espaços…

            Eu canto pensando que se ficar somente no abstrato devaneio ninguém vai nunca saber o que é e, mesmo sendo um abstrato tão preciso, ainda assim tem de ser dito e, sendo a garota é responsável direta por isso, ela merece saber para que a precisão tenha nome e, mesmo considerando que isso eu não esqueceria, em termos de pensamento, gostaria de não esquecer de dizer em palavras, ou tentar, primeiramente em forma de música, inclusive para ajudar o andamento do Crovão, inclusive olhando para a garota, inclusive nos olhos:

            – Me arranca desta ansiedade…

            E, quando o Crovão passa a procurar uma música nova entendo que já se passou um bom tempo e, percebendo que o bar do calçadão já está fechando, olho para a garota, do jeito que é bom olhar, do jeito que já estou olhando, nos olhos, e falo no melhor e mais suave tom possível sobre a gente ir para um hotel para ficar a sós, que eu e Crovão somos grandes amigos de há muito tempo, o que é bem verdade, e que a gente sempre compartilha de nossas intimidades por conta dessa profunda e cristalina amizade, o que sinceramente jamais foi verdade, senão o Crovão teria comido todas as minhas mulheres e, pelo que eu saiba, ele comeu somente umas ou outras, umas por bem, outras por mal.

            Mas eu falo de maneira bem falada, acho que estou inspirado e, com ajuda do esplêndido carisma de Crovão e de sua popularidade junto à comunidade local, a garota acha por bem… que não há nada demais… que somos somente nós três, garota, o que é que há, eu e o Crovão somos carne e unha e a gente vai cuidar direitinho de você…

            Táxi. Passamos, ainda, no banco 24 hrs da Tiradentes para mim tirar dinheiro, e vamos, pela indicação de Crovão, para o Motel Tigrão. Acho que esse é o nome. Ou é Motel Corujão, não sei, já faz décadas que não entro num motel em Pequena Londres.

            Cama redonda, mundo redondo e cor de rosa. Que menina formidável. E o Crovão, cavalheiro que é, me deixa ir na frente, e se o Crovão me dá a frente na menina a frente primeira é a esplêndida boca dela, e mesmo não pensando nisso no momento já me está claro, por experiência, que se ela soubesse o quanto uma prostituta da boca do lixo de São Paulo cobra por um beijo como aquele, ou da boca do lixo de qualquer lugar, entenderia que vale mais que todas elas juntas, porquê tudo que é oferecido voluntariamente vale mais que qualquer cifra e também, sem dúvida, porquê é um beijo que ela dá que, em termos de inspiração, somente as grandes profissionais poderiam se lhe aproximar, e apenas tecnicamente, e por isso iriam cobrar mais caro que um coito inteiro, e cobram mesmo, mesmo que uma prostituta, repito, ou já disse, por mais que ame a profissão, jamais seria capaz de se entregar do modo que aquela menina se entrega, em hipótese alguma.

            Sem auto-estima não existe vacina. Estou tendo toda auto-estima do mundo hoje, e já fazia tempo que precisava dela desse modo. Eu já até andava tendo raiva de deus, ou de qualquer coisa assim, porquê o sofrimento vai levando a gente nesse rumo, gerando um tal ranço da alegria que quando ela nos atiça a gente quase não quer acreditar, fica cheio de preconceito dela, tem vergonha de sentir, a gente acha que está se traindo, virando a casaca, mudando de personalidade, entrando num novo e perigoso sistema, e de fato muita gente prefere a estável reclusão que se arriscar numa aventura desconhecida e, muitos, quando chega a coragem, ou o desespero, conforme a interpretação, de se lançar na aventura, já vão logo atrás de uma prostituta e, sem dúvida, vão imaginar, em muitos casos, o que é um direito, que a prostituta se entrega por inteiro e, mesmo considerando que tem prostituta que por vezes pensa que se entrega por inteiro, nunca tem muita certeza, e ainda bem, falando nisso, que a menina, para além da boca, tem as distinções perfeitas que até parecem nascer da boca, como se a boca fosse a base de tudo o mais que o corpo dela oferece e totalmente desconhecido para mim, assim tudo o mais dela vai me fazendo esquecer de tudo que já passei na mão de prostituta na vida, inclusive do tempo que morei na boca do lixo, e na grande cavalgada mundo adentro dela já até estou amando a vida e tudo mais, até mesmo o sofrimento ou, em outras palavras, a carência, porquê só se ama a carência quando se a está matando, é quando o sexo vira santidade, é esta menina.

            Só que o Crovão é foda. Ele não pára de falar enquanto assiste nós dois. Ele é ator mas tem um tempo estranho no palco, um tempo que costuma deixar os outros atores nervosos; ele esquece falas, por conta de muito tempo de rabo-de-galo, e ele acaba sempre enervando os diretores que realmente não compreendem a pérola que tem nas mãos. Não como exatamente no meu caso. Quase sempre nunca como no meu caso. É que, embora o meu tempo de interpretação nunca tenha dado problema para ninguém, pessoalmente eu também costumo falar demais quando bebo e até mesmo fico meio insuportável, mas quando bebo muito mesmo.

            – “Basta a ti mesmo” – está dizendo o Crovão – tem de ser entendido como “seja fiel a ti e siga em frente”. Não é não, Alemão?

            O Crovão é ator-filósofo. É claro que ele está ansioso, mas não vou entregar ela a ele ainda porquê minha cota ainda não venceu. Mas ele falando atrapalha um pouco.

            – A Criação gera matéria-prima por conta própria, e nóis geramos a partir daí e devolvemos o que recebemos modificado na natureza. Por vezes sentimos o temor de que a Criação nos absorva em vida, usamos definições pra nos defender porquê essa é a nossa razão recebida, morou? A Criação é feito um Grande Útero, não é não, Alemão?

            O Crovão, toda vez que a gente se encontra combina comigo que vamos montar uma peça teatral juntos, mas a gente sempre acaba brigando por conta de seu tempo de ator que me deixa meio irritado, e também por conta de alguma coisa em mim que deixa ele irritado. O Crovão é um grande ator.

            – Pois o deslumbrante contato com o Grande Útero é antes um impacto tão grande capaz de nos anular numa fração de segundos e, no fundo, o Grande Útero não quer olhemos pra sua Cara porquê diante disso perderíamos a identidade. Por isso nosso impulso diante dEle é entrar pra dentro e tentar entender o “Basta a ti mesmo”. Não é lindo isso, Alemão?

            O Crovão fala, nós transamos, e de repente até parece que ele está narrando a transa, acho que é isso, e interpretando também a transa, em pé, e acho que quer até me dirigir, ou dirigir ela, ou então é algo que não quero entender, ou não consigo.

            – Mas o brasileiro não pode se apegar neste “Basta a ti” porquê ele é muito acomodado, não é não?… Alemão, acho que estou tendo alguma “algébrica emocional”…

            Esse termo aí ele nunca tinha usado, e acho que nunca mais vai usar. Nem sei se ele vai se lembrar disso aqui amanhã. É um filósofo que mal sabe escrever o próprio nome. Eu tenho memória, ao menos alguma, o mínimo, e tenho certeza que vou lembrar disso enquanto estiver vivo, ao menos da menina ou, ao menos, de partes muito específicas dela além da boca. Puxa vida.

            Só que é foda, o Crovão. Ele fala demais e nem sabe mais o que está falando, ele fala mas quer agir, e com ele falando assim não vou conseguir ficar o tempo que quero onde estou. Ele agora está dizendo que a menina está na verdade é afim de mim mas que foi ele que me apresentou e que, assim, ele não pode ser relegado. Tem algumas coisas dessa noite que lembro.

            – Então tá bom, Crovão, tó a menina pra você.

            O Crovão vai que vai na menina, embora também narrando o que faz e narrando até mesmo eu deitado ali, inerte, tentando dormir. Eu acho que ele também não vai conseguir chegar fácil ao ápice por causa de 10 horas de bebida. O pequeno útero está dando conta dos dois com boa margem de folga.

            A gente bem que pode dormir, é o que penso, dormir, acordar, continuar de onde paramos, dormir de novo, ou ao menos o Crovão pode me deixar fazer isso. Mas com ele narrando tudo, agora por sinal o que julga ser meus sonhos e, logo a seguir, narrando a si mesmo narrando e, depois, narrando tudo em vários sentidos, sobre a menina também, já mais nem sei o que ouço e o que penso, misturo, e tem também algo pensando em mim ou por mim.

            – Eu traduzo pensamentos, Alemão.

            Crovão diz que Fábio Júnior não é bem a cara do gosto da menina, que ela parece de uma tendência que a coloca num outro âmbito e depois canta, que coisa, qualquer coisa que nunca ouvi, não é música que já existiu, ou melhor, só existiu na cabeça dele, depois fala algo que até parece que virou outra língua, um grande ator apesar do tempo estranho e também do esquecimento do que está narrando e da própria língua que fala línguas estranhas. Que dormir, que nada, com o Crovão ali? Se fosse só a menina eu pegava no sono dentro dela, dormia dentro dela e ouvia toda sinfonia dentro do corpo dela e tudo mais, juro por deus, ou pelo diabo, se for o caso.

            Às vezes o Crovão engata umas idéias que não dá para saber se vêm de hoje, de ontem ou da eternidade, quando fala na língua que entendo.

            – Nosso silêncio guarda tudo, da plenitude a sílabas cruéis. Faz sentido a interação, depois do silêncio. Não há conforto na ação pelo barulho em si. Um destino, hoje tem o mundo virtual, possibilidades, fazeres, apagares, tomar conta, deixar-se, crescer. Que Era estamos vivendo, hein? Isso está acontecendo, né? Não é virtualidade não, né Alemão?

            E, de repente, como costuma acontecer com ele, ele está apavorado, parou tudo, apavorado quando quer fazer alguma coisa que jura que é a coisa mais importante do mundo, ele está gritando:

            – Vamo lá, Alemão! Vamo lá!

            Abro o olho e ele largou a menina. Não quero culpar o Crovão por tudo, mas ele não me deixou dormir, a menina não conseguiu cantar nenhuma música inteira que ele mesmo propôs por causa dele, e agora…

            – Lá aonde, Crovão?

            – Se a gente dormir, aí fodeu. Já vai dar hora da gente entregar o quarto!

            – A gente paga mais uma hora, uma noite, uma semana a mais.

            – Vamo lá, Alemão!

            Nem encontro a cueca, do jeito que estou ponho a roupa a vou meio que puto em direção a porta enquanto o Crovão se veste e veste a menina e dá alguma instrução irracional para a menina. Eu comento:

            – Você é foda, Crovão. Foi chegando aqui e já foi fazendo, nem me deixou chupar ela primeiro…

            – Você foi o primeiro, Alemão!

            – É?

            Certamente esqueci. Tenho um problema parecido com o do Crovão, esqueço. Acho que é por isso inclusive que não sirvo de testemunha, esqueço e depois fico inventando sobre o que esqueci. Mas isso também é sexo, o que a gente imagina e ainda mais quando a gente se perde na imaginação. Tenho certa dificuldade em distinguir o que vai na mente, o que vai por fora, e sobretudo quando estou dentro de uma garota. Minha cabeça ainda está dentro dela e tudo está embaralhado mas isso também é sexo, é quando a gente se confunde, ou se funde. Só me sinto imperdoável pela menina e, antes que esqueça, outra vez insisto:

            – Não é justo, Crovão. Essa menina tinha de ser chupada. Nós estamos bêbados, nos atrapalhando mutuamente, e aposto que com nós dois juntos a menina nem gozou direito, pobrezinha.

            Crovão se adianta na minha frente, abre a porta, depois se lembra que não era abrir a porta que era sua intenção, a fecha, dá todas as viradas na chave que não existem mais na fechadura, vai pegar a menina pelos ombros e a põe na minha frente:

            – Você quer chupar, Alemão? Tó, pega aqui e chupa. Vai ficar reclamando? Tó, pega e chupa.

            – Não, Crovão, agora que você entrou aí eu não quero. Era pra gente chegar, chupar, depois fazia o resto.

            – Vai tomar no teu cu, Alemão. A gente lava ela na ducha e você chupa.

            – Não, Crovão, agora tô constrangido…

            – Então vá se foder, Alemão!

            Saímos, táxi, vamos para um bar da Leste-Oeste. Pedimos uma cerveja, tomamos, vem um negro que não se sabe se é homem, mulher ou mesclado. Crovão não gosta dele, quer ir embora. Pegamos outro táxi e vamos num bar da Duque da Caxias, boca do lixo, aí sou eu que começo a pirar.

            Depois de mais alguma coisa de Fábio Júnior e outra de Roberto Carlos, do tempo que o Roberto Carlos cantava música sobre o inferno, passo a delirar, quero a menina só para mim, não quero mais nada, estou bravo em saber que terei de me masturbar ao acordar dia seguinte, quero brigar com o Crovão porque na minha opinião momentânea ele é o culpado de todas as minhas desgraças.

            Mas o Crovão não é burro. Ele diz que gosta mesmo é do Arnaldo Baptista. Pegando táxi vamos para mais uns 300 ou 400 bares, o Crovão canta Arnaldo Baptista todo confuso nas letras, só tem uma parte que ele acerta:

            – Você me deu adeus… Como? Se nós somos de deeus…

            O Crovão não deixa nem a cerveja acabar e já manda chamar um táxi para a gente ir para um outro bar. A gente passa num outro banco 24 hrs pra mim pegar mais dinheiro e isso me lembra o dia que eu nasci, 24, mas não quero lembrar o ano, peço mais dinheiro à máquina e ela não dá, confiro o saldo e só posso pegar menos, é tudo que tenho, tiro tudo, é a última vez que tiro algo daquela máquina, faz uns dez anos.

            Eu reclamando, querendo a menina só para mim, querendo cantar mais, querendo ficar sozinho, e o Crovão chamando táxi para a gente ir para outro bar, eu reclamando por uma coisa qualquer e o Crovão alterado:

            – Caralho, Alemão do caralho, foi você que falou pra menina que queria que ela ficasse com nóis dois. Leva as coisas até o fim, Alemão!

            Ele está bravo comigo porquê eu disse que vou embora, deve ser isso. Ele acha que estou chateado porquê dividi a garota com ele e de fato eu queria a garota só para mim mas não é nada disso o motivo pelo qual estou dizendo que vou embora, é que esgotou-se meu saldo e tudo que tenho é suficiente para pegar um táxi e ir embora, é mais digno, e estou mesmo cansado.

            – O que é o fim pra você, Crovão? Pra mim o fim é agora que tô com sono e quero dormir.

            – Então pra quê a menina, Alemão?! Que serventia a menina vai ter pra você dormindo?!

            – Vou embora, cuida bem dela.

            – Ô, Alemão, espera aí, caralho!

            Falo qualquer coisa para a menina, antes de ir, não sei o quê mas não me parece bom, talvez não a palavra mas minha expressão de bicho acuado, bicho revoltado que, certamente, não está revoltado com ela. Depois vou, ando duas quadras ou coisa assim, me esqueço em que lugar estou, em que cidade estou, volto para o bar, para o que penso ser o bar, o Crovão já sumiu, a menina já sumiu.

            Acho que me lembro do fim deste dia. Ando e ando para pegar um táxi, algumas horas, talvez três, quatro, cinco horas, ou talvez dias, talvez séculos, o taxista diz:

            – Tem certeza? Onde você vai fica a poucas quadras daqui.

            – Então vai dando voltas no quarteirão até esgotar esse dinheiro que é tudo que tenho.

            O homem faz o que falo. Umas vinte ou quinhentas voltas. Lhe digo que já morei em tanta casa que às vezes me impressiono de lembrar o caminho da última. Lhe digo que se fosse em São Paulo eu poderia dar o endereço da casa anterior, ou da anterior à anterior da anterior.

            – Telefoona… Não deixa que eu fuja…

            O taxista não se importa que eu cante. Eu canto pensando que não dei meu telefone para a menina, nem peguei o dela, nem o nome dela sei.

            – Você me deu adeus… Como? Se nós somos de deeus…

            Nunca soube o nome da menina, e honestamente nem mais quero saber, entendo que o passado não serve de outro modo que não como referência fixa dando asas para a imaginação. Já o Crovão só vi o mais uma vez, num rápido encontro numa tarde na concha acústica.

            Foi quando inclusive filei dois cigarros dele (era ele que sempre filava os meus), quando ele se lembrou daquele dia, mas não lembrava o nome dela, e disse que antes de sair eu falei besteira para a menina mas não lembrava o que era, e que ela agora provavelmente me odiava, e eu disse ao Crovão que ela estava odiando alguém que não existia, que eu amava a generosidade dela, e ele disse que depois que eu saí eles saíram um para cada lado.

            Ele já estava com a memória bem mais debilitada, mas tinha certeza de que eu era seu amigo, embora não soubesse como nem porquê, nem meu nome, nem o seu, mas sabia que a gente era amigo. Eu lhe perguntei se ele queria fazer daquele momento uma boa lembrança, se queria falar de alguma garota, de partes íntimas, que afinal é a melhor lembrança que se pode ter, mas ele disse que sempre fomos profundamente respeitosos, sempre fomos adoradores delas e só falamos com muito cuidado, que é puro e lindo demais, reverenciamos demais. Eu sempre gostei do Crovão por muita coisa e esse lado nobre dele é algo que não se aprende, se nasce. Tudo que vai ficar na memória, no final de tudo, será sexo, a lembrança da pele, e diante disso palavras são triviais.

            Algum tempo depois o Crovão partiu desse mundo, e de lá para cá algumas coisas ocorreram, o bar do calçadão não existe mais, o Ouro Verde pegou fogo, minha conta bancária foi encerrada, e nesse meio-tempo estive escrevendo alguma coisa e deixei por aí, depois revi e relembrei, vi que precisava recontar a mesma coisa de um jeito que o Crovão, que nunca ia ler, quem sabe fosse melhor configurado, e que quem sabe a menina, que já deve ser uma bela mulher, quem sabe uma grande atriz, relevasse algum momento ruim de minha parte. Preservo o que gosto com unhas, dentes e sigilo.

            E se vale dizer o fato desse longo espaço de tempo posterior ter sido tão restrito em intimidades, a menina se me tornou ainda mais operante na memória. Andei inclusive a procurando na Revista do Filo e não a encontrei, ou não a reconheci, assim me masturbei com a revista do Filo pensando nela que não estava ali, ou se estava não me era mais quem tinha sido.

            E não que eu pense só nela, não sou fingido, penso bastante em outras, mas de qualquer modo aquele dia entre nós vou sempre lembrar porquê tem um significado especial da antiga amizade com o Crovão à qual ela integrou-se absolutamente fazendo com que dois, numa noite, virasse três, e de três geramos um mundo de estranhas fantasias para depois, cada qual para o seu lado, lá fiquei eu me bastando à mim, sendo fiel à mim e entendendo que a fidelidade às vezes é justamente não seguir em frente, é apenas voltar para casa e deitar e dormir, acordar e ficar pensando no que já foi, ficar pensando no dia anterior quando a gente perdeu o que não queria perder, quando a gente dentro de um táxi, atrelado na idéia, ficou dando voltas de táxi na Mato Grosso, Goiás, Duque de Caxias, Mato Grosso, Goiás, Duque de Caxias…

 

 

Everton Bortotti